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Eles conseguiram...


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A Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), constituída em 1957 no governo Juscelino Kubitschek, englobava no início 13 estradas de ferro existentes no País, inclusive a N.O.B., sediada em Bauru. O Brasil tinha 37.000 km. de ferrovias e sonhava, então, executar um plano de expansão do sistema ferroviário sob a coordenação do governo da União que pudesse integrar a nação, como fizeram os Estados Unidos e a Europa. A ferrovia sempre foi sinônimo de progresso e, tanto lá fora quanto aqui, se constituiu na espinha dorsal da formação urbana até meados do século passado. Em torno das gares, originalmente implantadas para acolher e transportar a produção rural, o comércio florescia e a semente da urbe estava lançada. Assim se formaram, ou expandiram, inúmeros municípios que hoje abrigam centenas de milhares de cidadãos. Bauru foi um deles que a partir de 1906, quando a ferrovia aqui chegou, teve crescimento vertiginoso. Curitiba, capital do Estado do Paraná, fundada no século XVIII, entreposto do comércio entre paulistas e gaúchos se firma como grande cidade a partir do século XX, mais precisamente após a Segunda Guerra Mundial quando o consumo de café se expande pelo mundo e o Paraná se consolida como principal produtor. Curitiba é uma cidade que deve muito ao transporte ferroviário, assim como o principal porto marítimo dos paranaenses, na cidade de Paranaguá, considerado um dos mais importantes do País. O sistema ferroviário existente no passado, formado por vários troncos e ramais, não era - como hoje ainda não é - integrado. As ferrovias, na época, eram independentes e seus sistemas administrativos e operacionais também, exigindo prédios de grande porte para abrigar tais atividades. Assim, surgiu a magnífica gare existente da Praça Machado de Mello, em nossa cidade. Também, em Curitiba, as instalações da confluência da Rua João Negrão com a Av. Sete de Setembro que abrigaram a RFFSA são portentosas. Não foram só locomotivas e vagões velhos, oficinas e pátios abandonados, que sobraram da RFFSA, à história de um período áureo e algumas edificações, como as citadas, que são patrimônios históricos e como tal precisam ser preservadas, também fazem parte dessa herança.

Quando o governo Fernando Henrique privatizou o sistema ferroviário muitos imóveis da RFFSA ficaram vinculados às dívidas trabalhistas da empresa. Os imóveis de Bauru e de Curitiba entraram nessa dança. No dia 31 de maio de 2007 aconteceu a extinção oficial de RFFSA e seus bens passaram para o governo federal, sendo que alguns foram disponibilizados para quitar o passivo trabalhista e outros agregados ao patrimônio da União ficando à mercê da utilização da própria União ou de outra instituição pública. A semana passada foi anunciado em Curitiba que as instalações da RFFSA saíram da lista dos bens que garantiam as dívidas trabalhistas da RFFSA - até por que existem outras fontes de recursos que podem cumprir esse mister - e foram colocadas à disposição da Universidade Federal do Paraná. A verdade é que os paranaenses conseguiram aquilo, creio, fosse o melhor para nossa gare central. Parabéns! Além do ganho na preservação da história outro importante fato foi, neste Brasil que prima em desvalorizar as áreas centrais das cidades, manter um órgão público no centro de Curitiba, próximo da população.

Os paranaenses de Curitiba conseguiram algo impossível? A resposta é: não. Apenas pediram e perseveraram na solicitação. Movimentaram as chamadas forças vivas e tiveram nos órgãos de imprensa a caixa de ressonância de uma reivindicação justa. E nós, da então Cidade Sem Limites, vamos continuar assistindo o trio (melhor se fosse o trem) elétrico passar ou vamos colocar nosso bloco na rua, mesmo sendo o período quaresmal, para reivindicar direito justo tanto quanto o dos curitibanos?

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro-civil, ex-deputado federal, ex-secretário de Agricultura e ex-prefeito de Bauru

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