Há cinco anos trabalhando com reaproveitamento de materiais de demolição, o consultor comercial João Ayres não havia encontrado nada tão inusitado como o que localizou há cerca de duas semanas, quando comprou os restos de uma casa de madeira, que foi posta abaixo na quadra 4 da rua Vital Brasil, na Vila Bela.
Entre tábuas velhas e dobradiças enferrujadas, ele deparou-se com uma placa de madeira onde estão inscrições que datam de 1963, registradas por um membro do Partido Comunista. Em uma das faces da pequena ripa, lê-se: “Esta casa foi construída por Francisco Spetic e Ernesto Héli Carvalho da Selva, membro do Partido Comunista do Brasil desde março de 1925, na ocasião secretário político do Comitê Municipal de Bauru. É marxista-leninista, anti-revisionista e anti-prestista. Viva a Revolução Social Proletária! Bauru, 12-9-1963”.
Além da inscrição principal, que parece ter servido a Francisco e Ernesto como um memorial para a posteridade, no verso havia um breve aviso, quase premonitório: “Neste momento ocorre (sic) graves distúrbios em Brasília, presumindo-se um levante militar. Viva a Revolução!”. No ano seguinte, em 31 de março de 1964, o Brasil assistiria à tomada do poder pelos militares, com a conseqüente instauração do regime ditatorial.
Curioso, Ayres separou o objeto histórico dos demais materiais, que já foram destinados à construção de um piso de madeira para a loja de seu cunhado. Coube ao JC investigar a origem da placa, que passou 44 anos fincada no vão entre duas paredes da antiga construção. O manifesto, registrado em madeira peroba, foi escrito por Ernesto, conforme confirmou ontem sua filha, a telefonista aposentada Zvesda Márcia da Selva Souza, à reportagem.
Ela conta que Ernesto trabalhava como contador, paralelamente às atividades que desenvolvia como membro do Partido Comunista. Além disso, também auxiliava o cunhado Francisco, que era ferroviário, carpinteiro e marceneiro, a erguer casas na zona norte de Bauru. Filho de latifundiários, em nome do ideal revolucionário Ernesto abandonou todo o conforto que uma família de classe média alta poderia oferecer. Formado em medicina em Olinda (PE), ele jamais exerceu a profissão, já que teve o diploma cassado pela ditadura.
Segundo Zvesda, Ernesto passou grande parte de vida se escondendo dos militares. Um esforço em vão. Ela revela que o pai, aos 75 anos, foi lançado da cobertura de um prédio abandonado, em São Paulo, por agentes do governo militar. “Ele estava lá em uma reunião contra o governo. Como já estava velhinho, não conseguiu correr e foi encurralado. Nunca conseguimos saber onde jogaram o corpo dele”, conta, emocionada.
Subversão
A certeza de que o pai estava mesmo morto só veio dois anos depois, quando uma amiga da família, também membro do Partido Comunista, descreveu o homem que foi executado com as características de Ernesto. “Ele era um mulato baixinho, mas era um homem com uma coragem e inteligência fora do comum”, recorda-se a filha.
Quando saiu de Olinda, o contador veio morar em Bauru, onde conheceu a futura esposa, a austríaca Kreistin Spetic, com quem teve nove filhos. Em 1937, quando trabalhava em Lins e estava com a mulher grávida, Ernesto foi preso por dois anos em Fernando de Noronha (PE), acusado de subversão.
“Ele fazia traduções de textos em inglês e francês para serem estudados pelo partido. Também planejava ações de protesto contra latifundiários e empresários milionários. Quando foi preso, foi muito torturado. Foi um horror”, resume.
Em constante tentativa de despistar os militares, já que havia se tornado um comunista bastante visado pelo governo, Ernesto transferiu-se para o Rio de Janeiro (RJ) com a família. “Nesta época, ele fez uma música criticando o governo Getúlio Vargas, que foi publicada na Revista Careta, em 1953, e foi preso de novo”. Depois disso, a perseguição dos agentes do governo se tornou intensa e Ernesto precisou passar um período exilado na Rússia.
Quando ocorreu o golpe militar, em 1964, Ernesto - que já havia retornado a Bauru - teve de fugir. Foi quando a família perdeu por completo o contato com o parente. Apenas uma carta sem remetente, endereçada à Kreistin, chegou à casa dos Selva. “Ele era apaixonado pela minha mãe, que era sua ‘austríaca de pernas lindas’. E ela também amava meu pai. Tanto que ela morreu em novembro do mesmo ano em que ele foi embora”, relembra Zvesda.
Bastante orgulhosa do pai que teve, ela não lamenta nem o fato de não poder usufruir de grandes regalias materiais, mesmo sendo neta de proprietários rurais. “Ele distribuiu aos pobres todos os bens que tinha”, comenta.
Ela conta, inclusive, que, quando os pais de Ernesto morreram, ele rejeitou toda a gorda herança a que teria direito. “Ele não nos deixou bens materiais, mas nos deixou como legado uma história de vida muito bonita”, afirma.