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Vida é aquilo que a matéria absorveu


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O mistério da morte é parte do enigma da alma e da própria vida. Durante a vida que conhecemos o corpo é energizado pela alma; quando morremos, há uma separação. A alma continua viva e liberta dos constrangimentos físicos do corpo. Nada desaparece de verdade, apenas muda de forma. O líquido se converte em gelo durante certo tempo e quando esse gelo é derretido, ele se converte novamente em líquido. Água líquida e gelo são duas coisas e, não obstante, em sua verdadeira natureza, uma coisa só; assim também ocorre com o espírito e a matéria. A matéria é um estado passageiro do espírito. Uma árvore poderia ser cortada para a construção de uma casa, de uma mesa ou de um banco. Independentemente da maneira com que a forma se modifica, a madeira permanece madeira. Quando essa mesma madeira é queimada, ela se transforma outra vez, convertendo-se em calor. A árvore, a mesa, o banco e o calor são todos, em essência, diferentes formas da mesma substância. A princípio isto parece difícil de compreender já que somos extremamente dependentes da utilização de nossos instrumentos sensoriais para atravessar a vida. É mais fácil segurar uma mesa com nossas mãos do que agarrar a energia gerada pela combustão da madeira e, mesmo assim, o calor não é menos real do que a mesa.

Em um livro, por exemplo, as palavras na página são o corpo e as idéias por trás delas, a alma. A vida é aquilo que a matéria absorveu. É o estado de saúde do corpo físico que permite reter a alma que nele opera. Por uma razão ou outra, seja por motivo de enfermidade ou por ter se exaurido, esse corpo perde o poder de se manter coeso. Ele cede e a alma parte naturalmente, deixando o corpo material como se joga fora uma roupa de que não mais se necessita. A alma precisa de um corpo sadio para se expressar, mas o corpo precisa reconhecer a autoridade da alma.

O corpo é uma oferenda vinda de todo o universo. Ele não é cedido à alma apenas pelos pais, mas, também, pelos ancestrais, pela nação em cujo âmbito a alma nasceu. Esse corpo não é apenas uma concessão à raça humana, mas o resultado de algo que o mundo todo tem produzido durante eras: uma argila que tem sido moldada milhares e milhares de vezes; uma argila que tem sido preparada de modo que se torne cada vez mais inteligente, mais radiante e mais viva. Aquilo que uma pessoa conhece como sendo a primeira coisa de si mesma é o seu corpo. Ela chama a si mesma de o seu corpo; ela se identifica com o seu corpo. Infelizmente não conseguimos identificar nosso eu verdadeiro, nossa alma; é preciso fazer com que os olhos vejam a si mesmos. O caminho da meditação, do conhecimento espiritual coloca diante de nós um espelho que permite contemplar nosso real reflexo.

Para explicar esta idéia, meu pai contava a história de um leão que, ao perambular pelo deserto, encontrou um leãozinho brincando com as ovelhas. Ele fora criado com as ovelhas e, por isso, nunca teve a oportunidade de entender quem ele era. O leão ficou muito surpreso ao ver o jovem leãozinho fugir dele com o mesmo medo demonstrado pelas ovelhas. Ao alcançá-lo, o leão disse: “por que você está apavorado correndo com as ovelhas? Você é um leão!”.

“Não”, respondeu o leãozinho, “eu sou uma ovelha; tenho medo de você”. Tremendo, mas impotente, o leãozinho foi conduzido até uma poça dágua. Aí o leão disse: “olhe para mim e olhe para você. Você não é parecido com as ovelhas, é parecido comigo”. Quando uma pessoa pensa a respeito disso, ela começa a reconhecer o valor do caminho espiritual, o caminho no qual a alma não é treinada para ser possuída pela mente, mas sim, para possuí-la. Olhe bem de perto para a chama de uma vela e Você irá perceber a semelhança com sua alma - a chama percorrendo o ar, estendendo-se para cima, como em direção ao seu Criador e, apesar disso, o pavio a puxa de volta para a terra. De maneira similar, sua alma está em constante movimento para cima, enquanto seu corpo o retém com suas insistentes exigências de sustentação física e gratificação.

Para a alma, o corpo é, inicialmente, uma presença pesada; para o corpo, a alma é aquela consciência sempre limitando o comportamento do corpo. O conflito existe porque a alma precisa ser desafiada e o corpo purificado; a tensão entre eles, por fim, revelará o melhor de cada um. Corpo e alma devem se dar conta de que, aqui, eles são mais fortes juntos do que sozinhos. Da próxima vez que se olhar no espelho, pergunte a si mesmo: o que tenho diante de mim?

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica, Faculdade de Engenharia da Unesp de Bauru

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