Articulistas

É a ética, estúpido!


| Tempo de leitura: 3 min

O cartão de crédito corporativo do governo federal é a bola da vez dos grandes escândalos nacionais; mas, olhando atentamente, não é, em si, o vilão da história. Com ajustes pode até tornar-se um bom instrumento de controle das chamadas “despesas emergenciais”, ou nem tanto, realizadas pelos servidores, desde ministros a aspones, que utilizam verbas oficiais. Verbas oficiais, só pra lembrar, são aquelas que saem do nosso bolso.

Não importa o escalão, esse pessoal viaja, alimenta-se e gasta. O problema é saber onde e como gastam. A única certeza que temos é que o dinheiro utilizado é público, o que não sabemos ao certo é se o destino dado a ele é de interesse público. Hospedagem, alimentação, locomoção, enfim, são alguns dos gastos corriqueiros de quem viaja a trabalho. O que parece, graças ao rastreamento do cartão corporativo, é que a regra é pecar pelo excesso: hotéis de luxo, restaurante caro e transporte vip. A coisa fica ainda pior quando enfiam na conta viagens pessoais e gastos bem particulares. Não importa se num boteco, num free shop ou sex shop; coisas privadas, dinheiro privado!

Essa “confusão” não pode ser toda debitada na conta do tal sistema, como muitos beneficiários tentam alegar colocando à prova nossa inteligência, mas sim de quem o utiliza indevidamente. Condenar os cartões por expor um problema é o mesmo que culpar os raios xis pela fratura dos ossos. Ou melhor, já que o desrespeito histórico com a coisa pública neste país é uma questão mais oncológica que ortopédica, seria o mesmo que afirmar que uma tomografia é responsável por um câncer, só porque o detectou.

Os números do governo apontam para mais de 11 mil cartões, penso que deveria ser ampliado. Até para as esferas municipais e estaduais que ainda não dispõe. Mas só vale se houver transparência. É preciso que eu, você, o olhar crítico da imprensa e das instituições possam saber o que fazem com nosso dinheiro, mesmo que sejam nos gastos de varejo. Critérios mais claros de utilização, fiscalização e limitação de ações, como os generosos saques na boca do caixa, podem trazer importantes avanços.

Criado em 2001, ainda no governo FHC, o cartão corporativo objetiva suprir, numa parte privilegiada do funcionalismo, as chamadas contas tipo “B”, pequenos gastos com cheques, compras diversas, prestação de serviços, despesas com viagens e agilização nas aquisições de baixo valor, dispensando os complexos processos licitatórios. Quebrá-lo, devolvê-lo ou mesmo desestimular o seu uso, quando dentro das regras, pode ser um retrocesso. A faminta máquina devoradora de verbas precisa ser controlada. Se a simples checagem dos gastos de alguns cartões provocou tanto alvoroço é sinal de que, por um lado, com aperfeiçoamento, teremos um forte aliado na transparência dos gastos públicos e, por outro, e por isso mesmo, pode estar com os dias contados.

James Carville, homem de marketing e conhecedor da alma do eleitor americano, deixou um lendário aviso no comitê de campanha de Clinton em 1992: “It’s the economy, stupid!”. Com a devida adaptação ao momento atual, e se Lula entender o recado, ainda dá para transformar esse abacaxi numa saborosa limonada.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista. lvbauru@gmail.com

Comentários

Comentários