Tribuna do Leitor

“Sangue sobre a neve”


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Nos idos anos de 1959, foi lançado nos cinemas brasileiros um filme, protagonizado por Antony Quinn e Yoko Tani, com o título original “The savage inocents”, cuja denominação em português era “Sangue sobre a Neve”. Neste filme, os atores formavam um casal de esquimós, que viviam nas paragens geladas, juntos com a genitora da mulher, já entrada em anos.

Com o passar do tempo, a pobre anciã sentia que não era mais produtiva e que a morte se aproximava. Segundo um velho costume dos esquimós, foi abandonada no gelo, esperando que a chegada de animais selvagens abreviasse o seu sofrimento. Para o casal, nada mais natural. Quando a vida é dura e os recursos escassos, sustentar uma pessoa de idade que consome mais do que produz poderia colocar em risco a sua sobrevivência. Lamentavelmente, observamos hoje, que os nossos governantes agem como os esquimós que vimos naquele antigo filme. Não respeitam toda uma vida de sacrifícios e de trabalho que os nossos idosos prestaram à sociedade brasileira. Entendem que os nossos aposentados não mais produzem, e que, por isso, podem ser relegados no ápice de sua vida a um total esquecimento. Esse tratamento desumano, começa pelo sistema brasileiro de aposentadoria, seja do servidor público ou da iniciativa privada, que só reforça as injustiças e desigualdades sociais, sem qualquer preocupação com reposições dos desgastes pessoais sofridos. As políticas de atenção ao idoso e sua participação no controle social não são garantidas.

Como no caso dos esquimós, o nosso idoso é abandonado ao ”Deus dará”, sem uma recompensa financeira digna, sem medicamentos para minorar as suas dores, sem um mínimo de atenção e carinho. Esquecidos pelas políticas públicas, permanecem como a idosa do filme, esperando que os lobos selvagens cheguem para acabar com seu sofrimento. Porém, ao contrário da anciã esquimó, abandonada, sozinha e desamparada, aqueles que hoje já cumpriram com suas responsabilidades perante a sociedade e se aposentaram, têm uma arma poderosa, o voto, que iguala letrados e analfabetos, ricos e pobres, jovens e idosos, todos com idêntico valor em nossa democracia. Chegará o dia em que os aposentados da nossa sociedade, cobrarão daqueles que nos governam, o respeito que até hoje não tiveram. E ao contrário dos lobos selvagens que devoraram a anciã abandonada, nossos governantes, conhecerão, no devido momento, o peso, o valor e a dignidade dos nossos idosos. Desde já agradeço sua atenção. Um abraço.

Palmiro Mennucci, presidente do Centro do Professorado Paulista

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