Um dos mais importantes nomes da tradicional música francesa e amante da música brasileira - morou e se apresentou no Rio entre 1942 e 1945 -, o cantor e compositor francês Henri Salvador morreu ontem, aos 90 anos, em Paris, vítima de um aneurisma, segundo divulgou sua gravadora.
Nascido na Guiana Francesa, Salvador era famoso por sua voz macia, sua risada escancarada e sua longevidade: fez sua última apresentação ao vivo em dezembro passado, em Paris, e, segundo sua gravadora, planejava lançar um novo álbum neste ano. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, que esteve na terra natal do músico anteontem, em encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse que Salvador habitava “o cruzamento do jazz com a ‘chanson’ e a bossa nova, da Europa com as Américas”.
Prolífico como intérprete e compositor - passou pelo jazz, blues, rock e pela tradicional “chanson française” -, Salvador mudou-se com sua família para a França aos 7 anos e se apaixonou por música aos 12, após ouvir discos de Duke Ellington e Louis Armstong. Ganhou um violão do pai e tornou-se autodidata, participando de seu primeiro show aos 17 anos, com uma orquestra - seguiria com elas por quase uma década, até se lançar como cantor solo após sua temporada morando no Rio.
Após servir no Exército francês, Salvador integrou-se à banda de Ray Ventura em uma turnê sul-americana, em 1938. O grupo fez uma temporada no hotel Copacabana Palace, no Rio, e Salvador decidiu ficar na cidade, onde construiu uma reputação tocando no célebre Cassino da Urca. Após a Segunda Guerra Mundial, o músico voltou à Europa e fez dupla com Boris Vian, que seria considerada a introdutora do rock na França, a partir do hit “Rock and Roll Mops”.
Sua ligação com o Brasil voltou a ser exaltada a partir da gravação de “Dans Mon Île”, em 1957. A canção foi várias vezes creditada, por parte da imprensa francesa e pelo próprio Salvador, como inspiradora da criação da bossa nova, pois teria sido após ouvi-la que Tom Jobim teria tido a idéia de desacelerar o “tempo” do samba.
O escritor e colunista Ruy Castro, autor do livro definitivo sobre o movimento musical (“Chega de Saudade”), diz que a relação de Salvador com o ritmo nacional é exatamente a oposta: “Ele sempre se alimentou da música brasileira, não o contrário”. “Em 1957, Tom Jobim já estava fazendo suas canções há muito tempo”, diz Castro. “Sempre gostei dele, tenho vários discos, mas sempre achei um pouco cretina essa coisa de ele se beneficiar como inventor da bossa nova.”
Em entrevista em março passado, Salvador, no entanto, negou o título de “criador da bossa nova”. “Não gosto que digam isso. Não sou capaz, sou um pequeno compositor comparado a Jobim. Sou um pequeno melodista francês. Jobim é gigante.” O francês, que recebeu, em 2005, a Ordem do Mérito Cultural entregue pelo presidente Lula e pelo ministro Gilberto Gil (Cultura), também disse que o ritmo brasileiro “foi muito importante” em sua carreira.
Seu último disco, “Révérence” (2007) - que tem uma versão em francês de “Eu Sei que Vou te Amar” -, foi gravado no Rio, com o maestro e arranjador Jacques Morelenbaum.