O setor imobiliário brasileiro vive hoje um de seus melhores momentos, ao contrário do que está acontecendo com seus similares lá fora, especialmente nos Estados Unidos e em países da Europa e da Ásia onde o sistema bancário se envolveu nas patifarias do subprime. Depois que foi liberado de algumas das restrições que inibiam seu desenvolvimento, o setor no Brasil passou a trabalhar com muito mais cuidado que no passado e a investir com mais segurança. Rapidamente está se consolidando como um dos pilares mais dinâmicos do crescimento de nossa economia.
Viemos de um longo período em que os governos ignoraram o problema habitacional. Já tem mais de vinte anos desde que se realizou o último esforço razoavelmente ordenado de construção de moradias populares. Isso aconteceu a partir da reforma que instituiu o Fundo de Garantia e o BNH (governo Castelo Branco) e mais adiante sob o impulso admirável de um ministro do Interior, coronel Mário Andreazza em cuja administração se conseguiu reduzir em 4 milhões de unidades o déficit habitacional. Este voltou a inchar nas duas décadas recentes de modo que hoje se estima que há uma demanda reprimida de 10 a 12 milhões de residências.
Essa demanda começou a ser atendida neste início de segundo mandato do presidente Lula de muitas formas diferentes e nenhuma delas discrimina classes sociais. Novos mecanismos de financiamento estão ao alcance das camadas de renda mais baixa da população, que eram as que tinham maiores dificuldades para construir o teto. Isso tem sido facilitado pelo fato que temos hoje uma expectativa de inflação bem ancorada que encoraja os financiamentos com prestações praticamente fixas e prazos superiores a 10 ou 15 e até mais de 20 anos.
A possibilidade de obtenção da casa própria é uma das maiores aspirações da população, o que explica a velocidade com que vem se expandindo o mercado da construção. Essa expansão incomoda os espíritos que se assustam cada vez que o crescimento se acelera e por isso já pedem ação preventiva para “esfriar a demanda” (elevar os juros) para conter a inflação.
A última ata do COPOM serve a esse propósito meio terrorista mas que, na verdade, não corresponde à mensagem tranqüilizadora que o presidente do Banco Central tem procurado transmitir à sociedade.
Já há muito mais demanda do que oferta mas é exatamente isto que leva ao aumento da oferta. Basta tomar o exemplo do cimento: o alto consumo produziu uma situação de escassez, os preços subiram mas os cimenteiros investiram rapidamente para aumentar a produção e hoje temos 10 ou 12 novas fábricas em construção, de modo que vamos ter um rápido aumento da oferta e os preços relativos voltam aos níveis normais. É sempre dessa forma que os investimentos são feitos pois eles seguem a demanda.
Felizmente estamos em um outro momento em que claramente não há ameaça inflacionária, não há preços continuadamente crescentes e sim flutuações naturais numa economia como a nossa. Há algumas elevações por conta de eventuais problemas de oferta mas hoje isso é corrigido rapidamente, inclusive porque as indústrias de material de construção têm acesso aos financiamentos para aumentar a produção e é isso que faz a diferença.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento