Internacional

Paquistão: 37 mortos antes de eleição

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Islamad - Pelo menos 37 pessoas morreram ontemem um atentado contra um escritório eleitoral do PPP (Partido do Povo Paquistanês), naquilo que o governo teme possa vir a ser uma série de ataques visando desestabilizar a eleição parlamentar de segunda.

A explosão, segundo testemunhas ouvidas pela Dawn TV paquistanesa cometida por um homem-bomba, ocorreu na cidade de Parachinar (norte do país). Haveria, segundo a TV, pelo menos 50 feridos.

A região é conhecida pela atividade de extremistas islâmicos, que vêm boicotando o pleito e que são acusados pelo governo pelo assassinato da ex-premiê Benazir Bhutto, em dezembro.

O partido de Benazir, contudo, lança suspeitas sobre agências do próprio governo. Foi o primeiro grande ataque em uma semana. Antes, dois atentados haviam deixado 35 mortos entre o sábado retrasado e a segunda-feira.

Descrito com certa propriedade pela revista “The Economist’’ como o “lugar mais perigoso do mundo’’, o Paquistão realizará amanhã as eleições parlamentares mais importantes e temerárias desde 1970. Naquele ano, a disputa feroz entre um partido político do então Paquistão Oriental e o PPP, dos Bhutto, majoritário no território ocidental, levou a uma crise que culminou na independência de Bangladesh no ano seguinte. Só que desta vez a situação é ainda mais complexa.

O Paquistão tornou-se um colosso islâmico com 160 milhões de pessoas, metade delas com menos de 18 anos e um quarto na miséria. Infectado pelo vírus do extremismo, que se mescla com aspirações de soberania legítimas, o país de quebra tem que salvaguardar pelo menos 50 ogivas nucleares.

A chave da situação está com Pervez Musharraf, 64 anos. General e comandante da Forças Armadas, teve de deixar o posto para permanecer apenas como presidente do país, ditador para seus críticos - embora o Paquistão não seja uma ditadura clássica por haver elementos como imprensa relativamente livre e oposição organizada.

Para analistas da cena política paquistanesa ouvidos, a eleição é uma derrota para Musharraf em si própria. “É uma situação de perder ou perder. Ou ele manipula resultados e aí enfrentará uma explosão nas ruas e críticas do Exterior ou deixa a oposição ganhar livremente e se vê ameaçado de impeachment ou ingovernabilidade’’, diz o general da reserva Talaat Massud.

A rigor, o Paquistão nunca deixou de estar em crise desde sua criação, em 1947. O próprio Musharraf chegou ao poder em 1999 após um golpe. A situação de crise atual recrudesceu a partir do ano passado, quando Musharraf interveio no Judiciário e afastou a cúpula da Suprema Corte, colocando aliados em seu lugar. Isso levou a uma quebra de confiança da classe média que recebe hoje metade da renda familiar no país devido ao crescimento econômico recente.

Isso, aliado a uma crise de abastecimento de energia e produção do trigo básico na mesa dos paquistaneses mais pobres, criou o caldo para protestos em massa e o subseqüente endurecimento do regime, em novembro. A partir daí, as coisas só pioraram.

Instado pelos EUA, país ao qual se aliou como linha de frente contra o Taleban após o 11 de Setembro, transformou áreas tribais de seu país em zonas de guerra na caça a extremistas islâmicos, algo impopular no país. Mas o Exército ainda estava com Musharraf, ainda que ele tenha tido que deixar a farda. Estava, porque nesta semana o novo comandante, general Pervaiz Kayani, ordenou a retirada de todos os oficiais comissionados em postos de administração civil.

Embora nada indique que Musharraf “perdeu’’ o Exército, claramente está enfraquecido. Pressionado pelos EUA, Musharraf teve de aceitar a volta de dois líderes da oposição exilados, Benazir e o seu arquiinimigo Nawaz Sharif (PML-N). Tudo caminhava para um acordo quando Benazir foi morta.

As eleições de 8 de janeiro foram transferidas para segunda. Os atentados são a grande preocupação do governo, que deslocou 81 mil homens do Exército e 47 mil paramilitares para tentar garantir a segurança no país. Mais de mil pessoas foram detidas nos dois últimos dias no país. Em cidades principais, como Islamabad, há bloqueios e patrulhas armadas. A campanha acabou ontem.

Comentários

Comentários