Articulistas

A última trincheira do comandante


| Tempo de leitura: 2 min

Era março de 1985, estávamos às vésperas da posse do presidente Tancredo Neves. O ciclo do poder militar no Brasil estava prestes (sem trocadilho) a se encerrar. O País vivia às conseqüências de uma bem articulada ação política comandada por Ulysses Guimarães, que através da campanha pelas eleições diretas para presidente da República havia levado milhões de pessoas às ruas. A emenda das diretas não foi aprovada no Congresso, mas a mobilização popular pressionou as lideranças políticas ao entendimento, visando a saída dos militares do poder. Os olhos do mundo para cá convergiam na expectativa das mudanças econômicas, sociais e políticas anunciadas por Tancredo com a nova república. Certa manhã daquele março, um telefonema do governador de São Paulo, Orestes Quércia, anunciava um jantar-homenagem a Fidel Castro, que estava vindo para a posse de Tancredo. “Banquete?”, perguntei. “não, um jantar para umas setenta pessoas. Venha e se quiser traga a esposa”. Desliguei o telefone e o pensamento, como um raio, aportou nas reuniões estudantis da década de 60 realizadas nos diretórios acadêmicos; palavras de ordem gritadas a todo pulmão nas passeatas pelas ruas e avenidas de Bauru ou de são Paulo; decreto 477, etc. Nunca então havia imaginado, sequer sonhado, que um dia poderia sentar à mesa com a figura que personificava a resistência ao imperialismo americano. No dia, embora os acontecimentos de Brasília envolvendo a saúde de Tancredo e o seu impedimento não permitissem comemorações, o jantar aconteceu e Fidel, carismático e simpático, falou pelos cotovelos sobre tudo e todos. Era o depoimento de um personagem da história. Nove anos depois, em 1994, quando exercia o mandato de prefeito, fui a Cuba na companhia do secretário de Ciência e Tecnologia do estado, Roberto Müller. Vimos uma nação solidária. Lutando para sobreviver diante da crise de energia provocada pela falta do petróleo soviético. Um quadro dramático que os cubanos enfrentaram fazendo piadas. A luta pela soberania tinha forjado cidadãos.

A notícia da renúncia de Fidel suscitará um balanço onde as críticas ao regime, assim como a Fidel, aparecerão aos montes. Porém, uma coisa é certa e há que se dar a Fidel o que é de Fidel: sob seu comando Cuba deixou de ser bordel dos americanos transformando-se em nação soberana. A resistência cubana ao meio século de embargo econômico, qualquer que seja a avaliação, é um exemplo de luta e Fidel liderou essa epopéia. O comandante agora vai para outra trincheira, talvez a última, o regime vai se reciclar e sobreviverá.

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro-civil, ex-deputado federal, ex-secretário da agricultura e ex-prefeito de Bauru

Comentários

Comentários