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O outono do patriarca


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Anuncia-se a aposentadoria de Fidel Castro, o último líder comunista autêntico. Alquebrado aos 81 anos de idade, depois de 49 anos de exercício do poder absoluto de Cuba, o comandante diz que vai apenas escrever para o seu jornal Granma, o mesmo nome da lancha do desembarque na ilha para guerra revolucionária contra Fulgêncio Batista, derrubado em 1º de janeiro de 1959. Fidel já não tem mais resistência física para um discurso de 5 horas, na Plaza de la Revolución, como estava acostumado fazer. Quando o turista perguntava se era verdade que havia tortura em Cuba, o povo assegurava que sim: ter que ouvir o blá-blá-blá quilométrico do velho caudilho prestando contas. O ocaso forçado pelas más condições de saúde é o fim do mais longo governo revolucionário conhecido no mundo. Seu sucessor natural, o irmão Raúl, deverá ser confirmado no cargo hoje. Também não é nenhuma criança. Está com 76 anos de idade.

Quando estive em Cuba uma autoridade me contou que Fidel quase mandou o irmão para “El Paredón”, sob suspeita de conspirar. Os dissidentes eram metralhados de encontro à parede depois de um julgamento sumaríssimo. Felizmente, para Raúl, descobriu-se em tempo que ele era vítima de intrigas e de inveja, pela condição de primeiro-irmão.

A maior frustração do comandante foi não ter conseguido implantar na ilha o modelo do socialismo tropicalista que sempre pretendeu. A União Soviética entrou em declínio e cortou o auxílio financeiro sistemático a Cuba, usado para contrabalançar o rancoroso bloqueio econômico decretado pelo governo dos Estados Unidos e que até hoje perdura.

A maioria do povo cubano nunca deixou de ser feliz, apesar de todas as dificuldades vividas pela população com a escassez dos produtos de consumo mais comuns. Parecido com o baiano, quando não está festejando está ensaiando para a festa. O jornalista Paulo Sant’ana explica que lá, todos são pobres. “E quando a gente não tem vizinho rico, não tem com quem comparar com diferenças. Mesmo sendo pobre se é feliz, porque não há a quem invejar na ilha”. É possível. Mesmo aqueles que recebem dinheiro dos parentes que moram no exterior, não têm aonde gastá-lo. Comprar o quê. O contrabando existe, mas ao risco é grande. Um garoto me abordou no Malecón, a avenida beira-mar de Havana, querendo comprar o meu tênis já bem batido. Outro ofereceu uma caixa de charutos Cohiba, que lá vale mais de cem dólares, pela minha calça jeans. No centro de Havana, o lugar mais procurado é a Sorveteria Coppelia, a maior do mundo com cerca de 10 mil metros quadrados. As filas são imensas para comprar as bolas do gelado, colocadas em pratos de plástico. Entrei na fila e logo um funcionário veio me buscar para um atendimento exclusivo. Fiquei com vergonha de passar na frente de toda aquela multidão e insisti para permanecer onde estava. O cubano respondeu que o país precisava dos meus dólares e não haveria mais sorvete até que a fila chegasse ao balcão de atendimento. Pedi dois de morango com chocolate, como no filme. Tomei um e tentei dar o outro para uma garota no final da fila. Ela não aceitou e passei vergonha novamente.

Percebem-se êxitos reais do regime cubano em setores básicos como a educação, esporte e saúde. O país retrocedeu em termos de habitação, saneamento básico, comércio internacional e energia, principalmente. Conversei com um médico que obteve o direito, depois de dez anos na fila, de comprar um carro Lada, desses que já tivemos no Brasil. Ficou contente porque poderia usá-lo como táxi e ganhar algum dinheiro extra nas horas de folga.

Caiu o Muro de Berlim, o capitalismo venceu. A revolução fracassou. Fim da história. Tenho enorme simpatia pelo povo cubano que há quase um quarto de século resiste bravamente ao cerco norte-americano. Se fosse de sua vontade teria derrubado Fidel. Cuba não tem exército. Só um efetivo mínimo. Os quartéis foram transformados em escolas. As armas estão guardadas em lugares conhecidos e os voluntários irão buscá-las em caso de invasão do território. Espero a participação de governos responsáveis e solidários, depois de Fidel. A transição pacífica e segura para a democracia, único regime que pode restabelecer - em proporções iguais - a liberdade e as oportunidades pessoais, sem aviltar ainda mais a consciência de um povo marcado pelo sofrimento e privação.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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