Cultura

Sobre mundos: Nem tudo por acaso

Por Padre Beto* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Imagine dois homens extremamente racionais que possuem grande dificuldade em lidar com o seu lado emocional. Um deles é jogador de bilhar e com a mesma destreza que controla suas jogadas, procura controlar sua relação amorosa. O outro trabalha em uma empresa que possui a função de manter em ordem o funcionamento do trânsito da cidade de São Paulo e se mantém afastado de um relacionamento que poderia criar um caos em sua vida - o relacionamento com uma filha de um ex-casamento.

Tudo vai bem até que um acidente de trânsito acontece. A partir daí, o jogador de bilhar precisa aprender que a bola branca nem sempre nos obedece em nossas jogadas e o controlador de trânsito nem sempre pode desviar do caminho a vida de outras pessoas. Aliás, os dois aprendem que, como no trânsito movimentado de uma cidade, nós seres humanos somos como partículas de átomos nos movimentando em um espaço, apenas com uma diferença: nós possuímos a liberdade de escolha. Justamente esta é que torna quase tudo fora do controle.

Ao mesmo tempo, os dois também descobrem que, mesmo não podendo controlar tudo, podemos influenciar para que este jogo da vida não se torne uma simples criação do acaso. A sensível história contada no filme “Não Por Acaso”, de Philippe Barcinski, nos relembra um fato importantíssimo para os dias de hoje: existência humana e liberdade são, desde o começo, inseparáveis.

Liberdade aqui entendida como liberdade de alguma coisa e não necessariamente para alguma coisa. Em outras palavras, a liberdade em seu sentido negativo é a liberdade em relação a nossos instintos. Desde que o ser humano atingiu o estágio da racionalidade não pôde mais agir como simples animal. Todas as suas ações possuem significado, geram culpas, alegrias, satisfações ou frustrações. Os seres humanos possuem não somente os desejos essenciais que a natureza nos impõe, mas também sonhos que elabora através de sua mente criadora.

Esta liberdade é, na verdade, para o ser humano uma “faca de dois gumes”. Ao mesmo tempo em que o ser humano pode escolher como construir sua vida sem estar limitado ao determinismo da natureza, suas ações não são mais tão simples e pragmáticas como a dos animais. Um animal age quando está com fome alimentando-se de outros animais sem que a morte destes gere algum exercício de raciocínio. O ser humano, libertando-se do determinismo natural e começando a pensar, deixou de ser um simples elemento passivo de um ecossistema passando a ser sujeito de sua própria vida construindo um universo humano que chamamos de cultura.

A narrativa bíblica do Gênesis quer justamente mostrar esta transformação do ser animal para o ser que se alimentou da árvore do conhecimento do Bem e do Mal. A partir daí, o homem não vive mais em um “paraíso”, mas precisa trabalhar e se alegra, mas também sofre com suas ações. Deixando de ser animal, o ser humano passa a ser um indivíduo que reconhece em si particularidades que o diferencia não somente dos animais, mas também dos outros seres humanos. Afinal, cada um possui seu modo de pensar e, desta forma, realiza suas próprias escolhas. Aqui está o outro lado da moeda da liberdade.

Os seres humanos não agem da mesma maneira e possuem visões de mundo diferentes. Isso torna as relações humanas complicadas, pois nem sempre recebemos dos outros seres humanos as respostas que desejamos. Mas o maior problema em relação à liberdade não são as diferenças entre os seres humanos, mas a falta de prática da pessoa humana no exercício de pensar sobre suas próprias ações. Aqui encontramos uma grande contradição. Somos a única espécie do planeta que possui um grau elevado de inteligência, mas muitos não a utilizam refletindo sobre seus instintos, emoções, sentimentos, relacionamentos, estruturas econômicas, regras sociais, etc.

Pior ainda, muitas vezes, diante da liberdade, o ser humano parece fugir, consciente ou inconscientemente, e se refugiar em alguma coisa que venha a conduzir sua vida e seus relacionamentos. Ao invés de pensarmos e discutirmos sobre as diversas situações de nossa vida, tentamos nos iludir com mecanismos de fuga. Um exemplo clássico, no momento, são as religiões, principalmente as cristãs. Muitas pessoas procuram jogar todos os seus problemas para Deus como uma tentativa de volta ao paraíso infantil do Gênesis ou desenvolvendo “dons” mágicos como falar em línguas ou receber curas.

Um dom demasiadamente esquecido nas religiões atualmente é o da inteligência, o dom da sabedoria. Em outras palavras, a única saída para o homem é desenvolver o dom que recebeu ao comer da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, o dom de criar o que é o bem e evitar o que é o mal para ele e seu universo.

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