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Surpresas marcam dia de visita

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Visitar as reservas de mata nativa que a Duratex mantém na região de Bauru é uma rara oportunidade de perceber como é grande o poder que a natureza tem de se regenerar de depredação praticada pelos seres humanos.

Por muito tempo, no início do século passado, as áreas de cerrado existentes na Fazenda Monte Alegre, em Agudos (onde a empresa mantém unidades de produção e armazenamento), forneceram energia para as locomotivas da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). Árvores que haviam demorado décadas para se formar foram simplesmente derrubadas e convertidas em lenha para as marias-fumaças.

A aquisição da área pela Duratex marcou o início do lento processo de recuperação das áreas devastadas. Hoje, parte significativa dos remanescentes de mata nativa existentes no local é composta por árvores e plantas que cresceram por conta própria (graças, principalmente, às sementes dipersas no solo por morcegos e aves). Em um ou outro ponto, funcionários da Duratex fazem o manejo das áreas, mas isso só nos casos em que o plantio de espécimes nativos se mostra necessário.

“Até o momento”, explica José Luiz da Silva Maia, engenheiro florestal e coordenador da área de meio ambiente da Duratex, “nossas áreas de vegetação nativa têm mostrado um bom nível de recuperação.”

A visita que a equipe do Jornal da Cidade fez a Agudos foi relativamente rápida. Depois de cerca de 40 minutos no local, seguimos viagem rumo ao município de Lençóis Paulista, onde a empresa mantém uma grande unidade de reflorestamento, um conglomerado de fazendas com cerca de 28 mil hectares de extensão, cujos primeiros lotes foram adquiridos pela Duratex no final dos anos 70.

Lá, conhecemos um dos últimos trechos de mata atlântica do Interior do Estado: a Reserva Natural Olavo Egydio Setúbal. São 615 hectares, situados dentro da fazenda Rio Claro (uma das que compõem a propriedade), cobertos por mata estacional semidescídua (que perde as folhas durante parte do ano).

Apenas pesquisadores ligados a universidades, funcionários e pessoas autorizadas podem adentrar à área. Interessante é que quando a reserva começou a ser constituída, no final dos anos 70, pouca gente demonstrava estar disposta a visitá-la.

“Acontecia muito de contactarmos especialistas para que fossem até lá realizar estudos sobre fauna e flora, mas quase ninguém aceitava o convite. A maioria achava que, por se tratar de uma área de plantio de eucalipto, não haveria nada de interessante para ser pesquisado lá”, conta Maia.

Mas essa resistência inicial durou pouco tempo. “Com o passar dos anos, na medida em que os especialistas foram tomando conhecimento de tudo o que existia no interior da reserva, a procura foi aumentando, e hoje existem dezenas de trabalhos referentes ao local publicados ao redor do País”, diz Maia.

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A pegada

Logo que chegamos às imediações da Reserva Natural Olavo Egydio Setúbal, começamos a encontrar pegadas de mamíferos espalhadas pelo chão. A primeira que avistamos é grande, meio fechada e apresenta sinais de unhas.

Provavelmente é de um cachorro-do-mato ou de um lobo-guará, concluem nossos guias, o engenheiro florestal José Luiz da Silva Maia e a bióloga Angélica Rodrigues Coelho. De cor avermelhada, o guará é um animal “malandro”. “Eles (os lobos) costumam rodear os locais onde os dois funcionários fazem as refeições para vasculhar as sobras de comida que estão enterradas”, explicam.

Caminhamos alguns metros por uma velha estrada que corta a mata e nos deparamos com uma pegada mais aberta. “Esta não tem sinais de unhas: tanto pode ser de uma jaguatirica grande ou mesmo de uma onça”, diz Maia.

Essa proximidade com o felino não deixa de nos animar, embora tivéssemos a certeza de que dificilmente ficaríamos frente-a-frente com a onça, assim como também não avistaríamos o jacaré-de-papo amarelo que habita uma represa existente na propriedade. O horário que escolhemos para a visita (começo da tarde) não ajudava muito (a maioria dos animais têm hábitos noturnos). Mas isso não quer dizer que ficaríamos privados de ver os animais. Mais tarde, teríamos um encontro inesperado com um “morador” da reserva.

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O retrato

Depois de alguns minutos caminhando pela mata, resolvemos ir para o outro lado da Reserva Natural Olavo Egydio Setúbal, onde existe uma peroba-rosa inclinada de mais de 30 metros de altura. No meio do caminho, uma cena rara: uma fêmea de veado catingueiro passa chispando pelo meio da estrada usada para o escoamento da madeira do reflorestamento.

O animal percebe nossa presença, pára e fica nos observando. Estamos em dois carros. Eu e os funcionários da Duratex José Luiz da Silva Maia e Angélica Rodrigues Coelho vamos na frente, e resolvemos dar passagem para que o veículo de trás (onde está o repórter-fotográfico Éder Azevedo) avance. “Não desce daí, senão ela se assusta”, digo a ele.

Maia explica que os animais silvestres (soltos na natureza) costumam fugir tão logo reconhecem uma silhueta humana. Mas naquele dia, a teoria falhou. Depois de obter uns closes da fêmea do interior do carro, Azevedo começa, lentamente, a abrir a porta do veículo. “Ela vai fugir”, dizemos.

Para nossa surpresa, porém, o bicho permanece imóvel, enquanto o fotógrafo avança em sua direção. Azevedo chega a ficar a menos de 20 metros dela. De repente, ela faz que vai fugir no meio dos eucaliptos, mas retorna correndo para o lado de onde havia surgido.

“Foi estranho”, comenta a bióloga Angélica, “pois o natural seria ela seguir em frente, não retroceder.” Uma das explicações para o ocorrido seria de que a fêmea havia deixado algum filhote do outro lado da estrada e não teve coragem de seguir adiante sem ele. Fatos como este são extremamente raros de ocorrer, garantem os profissionais.

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