Economia & Negócios

Redução do embargo à carne bovina afasta queda de preço

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 3 min

Se o embargo da União Européia (UE) à carne bovina brasileira - decretado em 31 de janeiro - já havia decepcionado consumidores que esperavam queda de preços no mercado interno, agora essa possibilidade ficou ainda mais distante. Ontem, a UE voltou a permitir importações de carne de 106 fazendas brasileiras, o que torna mais improvável uma eventual “sobra” de carne para abastecer o consumidor final em solo verde-e-amarelo.

De acordo com a porta-voz européia de Saúde e Proteção ao Consumidor da Comissão, Nina Papadoulaki, “as autoridades brasileiras enviaram à Comissão Européia (órgão executivo da UE) uma lista provisória de 106 fazendas, com os correspondentes relatórios das auditorias, que garantem que elas cumprem todos os requisitos para importação de carne”.

Com a nova lista aprovada, o Brasil pode voltar imediatamente a exportar à UE carne desossada e maturada produzida nessas fazendas. Entretanto, a missão de veterinários europeus que está no Brasil desde a semana passada inspecionando os sistemas de controle sanitário de 30 estabelecimentos escolhidos entre os listados, permanece a mesma.

Mas tudo isso era previsível para quem tem experiência neste setor. De acordo com o vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, o embargo europeu à carne bovina nunca teve relação direta com as projeções de quedas de preços feitas por muitos analistas.

Segundo ele, a UE não está entre os principais compradores da carne bovina brasileira. O que poderia ter provocado alguma alteração de valores é o atual período de safra. Porém, nem isso fez com que os preços ao consumidor caíssem, pois há pouca oferta de carne no mercado brasileiro.

“A exportação de carne do Brasil para a UE gira em torno de 300 mil toneladas ao ano, o que significa cerca de US$ 1,5 bilhão. O Brasil exporta US$ 100 bilhões ao ano. Isso (US$ 1,5 bilhão) é insignificante para o País, por isso, não poderia gerar uma baixa significativa (nos preços). Nossos principais compradores de carne bovina são a Rússia, Estados Unidos e o Oriente Médio. A realidade que temos vivenciado é a da falta de oferta de animais para abate”, esclarece Lima Verde.

Arroba em alta

De acordo com ele, em pleno período de safra e com os pastos bem servidos pela temporada de chuvas, o preço da arroba do boi está em torno de R$ 78,00, o maior dos últimos 20 anos em dólar. Na entressafra, a partir de junho, o preço da arroba pode até chegar próximo de R$ 89,00.

Além disso, nos últimos anos muitos pecuaristas se desfizeram da criação para ceder lugar em suas propriedades à plantação de cana-de-açúcar, que tem avançado em diversos Estados. A redução dos espaços impediu o crescimento do plantel, o que tem resultado na baixa oferta de carne bovina no mercado brasileiro.

“A redução das criações bovinas também gerou outro reflexo que vem sendo observado: o aumento dos abates de fêmeas. Com isso, nos últimos anos foi diminuindo o número de matrizes reprodutoras. Essa é a realidade encontrada em qualquer região do País”, destaca Lima Verde.

A dificuldade de encontrar animais para o abate é reiterada por uma fonte ligada a um frigorífico da região, que pediu para ter o nome preservado. Segundo ela, a redução da oferta de bovinos se acentuou em dezembro do ano passado.

“Por causa disso, muitas fêmeas começaram a ser abatidas pelos criadores, mas isso prejudica toda a cadeia porque a função da fêmea em um rebanho é de reprodução. Com isso, não há aumento dos plantéis e a oferta de carne continua baixa, mesmo na safra. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui para frente.”

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