Um quadro do artista plástico bauruense Percy Coppieters estará permanentemente exposto na sede nacional do PCdoB, cuja inauguração ocorrerá em março. O quadro é uma homenagem do artista a Maria Lúcia Petit e foi doado à sua mãe, dona Julieta Petit, em 1996. Dona Julieta teve três filhos que foram militantes do Partido Comunista do Brasil, assassinados pela repressão durante a guerrilha do Araguaia, em 1972 (Maria Lúcia, que tinha 22 anos de idade), 1973 (Jaime, com 27 anos) e 1974 (Lúcio, 29 anos); até hoje apenas Maria Lúcia teve as circunstâncias de sua morte oficialmente esclarecidas.
Maria Lúcia é, até agora, a única entre os guerrilheiros cujos restos mortais foram identificados. Sua ossada foi encontrada em abril de 1991, no cemitério de Xambioá, sul do Pará, juntamente com outra, que se supõe ser de Francisco Manoel Chaves. Mas a identificação oficial só ocorreu em maio de 1996: há informações de que, ainda em 1991, o atual senador Romeu Tuma - que, na época, dirigia a Polícia Federal - teria aconselhado ao médico legista Badan Palhares, do Departamento de Medicina Legal da Unicamp, que participou do encontro da ossada, a não identificar os restos mortais dos guerrilheiros do Araguaia.
Em conseqüência, o reconhecimento só ocorreu cinco anos depois, quando o jornal O Globo publicou uma série de reportagens sobre a guerrilha, feita a partir de documentos e fotos fornecidos por um militar ao jornal. As fotos que vieram a público na ocasião traziam uma série de indícios fortes (detalhes da roupa que a guerrilheira usava quando foi executada) que, juntamente com o reconhecimento de sua arcada dentária, foram mais fortes do que as pressões para que não fosse identificada.
Lúcia pôde então ser sepultada, no cemitério Jardim do Ypê em Bauru, 24 anos depois de sua morte, numa cerimônia que teve a participação de várias entidades ligadas à luta pelo restabelecimento da verdade em relação aos mortos e desaparecidos pela repressão da ditadura militar de 1964. Nela estiveram, além da família e da Comissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos, a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia e a Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado. Além de representantes de partidos políticos de esquerda, entre eles o Partido Comunista do Brasil, em homenagem à heroína que ali era inumada. Houve também sessão solene na Câmara Municipal de Bauru, por iniciativa da vereadora comunista Maria José ‘’Majô’’ Jandreice.
Foi nessa ocasião que, juntando-se às homenagens, o pintor Percy Coppieters, que mantém um ateliê em Bauru, entregou o quadro àquela que, na opinião do jurista Egmar José de Oliveira, foi uma mãe "absolutamente diferente". A opinião está registrada no voto onde, como relator do pedido de anistia post mortem apresentado por Dona Julieta Petit à Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, o jurista diz: "A senhora merece o nosso mais profundo respeito".
O Estado brasileiro, dirigido pelo operário Luiz Inácio Lula da Silva, reconhece, por esta Comissão de Anistia, a senhora como uma mulher ímpar e singular; uma mulher guerreira que aos 85 anos de idade comparece aqui e exige de cabeça erguida que se reconheça a condição de perseguidos políticos de seus três filhos: Lúcio, Jaime e Maria Lúcia, brutalmente assassinados pelo regime militar quando lutavam por uma causa justa - liberdade, democracia, justiça e igualdade social. Dona Julieta, a senhora é seguramente uma mãe absolutamente diferente, uma mãe que colocou no mundo três filhos e os criou com tamanha firmeza, convicção e desprendimento que chegaram ao limite máximo - deram suas vidas pela libertação de seu povo’’.
Quando Dona Julieta despediu-se da vida, em 2007, seus filhos Laura e Clóvis Petit, decidiram doar o quadro ao Partido Comunista do Brasil. "Meus irmãos eram militantes do PC do B’", disse Laura; "fizeram parte da luta do partido, fazem parte de sua história; resistiram até o final de suas vidas. Foi por isso que decidimos que o lugar do quadro é com o partido", disse.
Geraldo Bérgamo