O que fazer com um dia extra? No Brasil nunca vi um ano bissexto ser motivo de discussão em jornais, sites da internet, mesas de bar e rodas de amigos, então não é de estranhar minha surpresa ao descobrir o alvoroço causado na vida das pessoas, ao menos em Londres, pelo Leap Day, o 29 de fevereiro.
Tradicionalmente conhecido como o dia em que as mulheres podem propor casamento aos namorados ao invés de esperar pela proposta, este ano o Leap Day sofreu um acréscimo em importância: uma campanha para transformá-lo em feriado para assim não aumentar os danos ecológicos causados ao mundo. Sim, o assunto é sério!
O National Trust, encarregado de cuidar do patrimônio do país, deu a seus empregados a escolha de trabalhar ou não sem desconto em folha com a única obrigação de escrever um relatório sobre o que ganharam ou não com o dia extra. Quase algo como uma daquelas tão conhecidas redações sobre as férias escolares que todos nós fizemos no primário. Acoplado ao relatório ainda em branco uma lista de doze páginas com idéias verdes, aparentemente realizada sem o auxílio do nosso Rodrigo Agostinho, além da garantia de não punição aos que optarem por não executar nenhuma das idéias e sim passar o dia vendo TV ou arrumando o armário de sapatos e bolsas de couro.
O Trade Union Congress, a confederação sindical, está incentivando os empregadores a aderir ao Green Leap Day e a liberar seus funcionários para ficar em suas casas realizando as tais tarefas propostas que de certo modo ajudarão ao planeta, tais como economizar trinta minutos de internet, trocar suas lâmpadas por outras mais econômicas, abaixar o termostato do aquecedor em 1º C, separar o lixo reciclável, organizar com vizinhos caronas além de discutir com as crianças os efeitos das mudanças climáticas ao redor do mundo. Ao todo, segundo o jornal Telegraph, para executar todas as ações propostas pelo National Trust, uma pessoa normal levaria aproximadamente doze horas e quarenta minutos. Não é muito tempo na cruzada para salvar o mundo, mas é bem mais do que as oito horas de trabalho designadas.
Lindo no papel reciclado, diz boa parte da população, já duvidando que o simples fato de ter um dia de folga pago vá aumentar a consciência ecológica de alguém ao invés de, em um efeito extremo reverso, causar um boom de consumo e emissão de gás carbônico como em qualquer outro feriado.
Seja como for, esse não é um mal que nos aflige. No Brasil, um ano bissexto ainda é pura e simplesmente um ano com um dia a mais há cada quatro anos. Se for dia de semana, trabalha-se, se não, não. Afinal, a razão da existência do tal ano não é só para para corrigir uma diferença “entre o ano-calendário convencional e o tempo de translação da Terra em volta do Sol”?
A autora, Janaina Fainer Bastos, é produtora, jornalista, atriz, acaba de voltar de Londres e só fez duas cópias desse artigo. Ambas em papel reciclado