Num belo dia (ou noite, tanto faz), com o coração tomado de ardor vocacional, eles assumiram, perante Deus e a comunidade, o compromisso de doar a própria vida à obra evangelizadora. Renunciaram às tentações da carne e aos prazeres mundanos para poder se dedicar exclusivamente à Igreja e aos fiéis. Enquanto viam os demais homens constituírem família e construir uma carreira sólida profissional, eles permaneciam imersos na solidão do trabalho missionário.
Até que um dia, cansados de carregar o fardo imposto pelas regras eclesiais, perceberam que não poderiam continuar se enganando (nem enganando aos fiéis). Preferiram, então, renunciar a algo que, segundo a teologia católica, é eterno e irrenunciável: em suma, deixaram de ser padres.
Cada caso é um caso - certamente diria Conselheiro Acácio, personagem do romance “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós, depois de ler esta passagem. Em todo caso, a descrição feita acima (embora meio floreada) ajuda a dar uma idéia do que se passa na vida de um homem que renunciou ao ministério presbiteral ou, como se costuma dizer popularmente, largou a batina.
Não há dados exatos sobre quantos ex-sacerdotes - expressão que, em termos teológicos, poderia ser considerada incorreta (uma vez padre, sempre padre) - existem atualmente no País. Mas, se fossem levadas em conta estimativas divulgadas por jornais, revistas e sites da Internet nas últimas semanas, seria possível afirmar que o número varia entre 4 mil e 8 mil (frente a pouco mais de 18 mil padres celibatários que atuam em paróquias de todo o Brasil).
O professor de teologia e ex-presidente do Movimento de Padres Casados (MPC) - entidade que, nas últimas décadas, tem lutado para que a Igreja readmita os padres que renunciaram a suas funções -, Armando Holocheski, costuma ser modesto quando faz projeções sobre o assunto. “Na metade dos anos 80, os cadastros da nossa entidade contavam com cerca de 3,5 mil endereços. Nos anos 90, o número caiu um pouco, mas hoje acredito que tenha aumentado, já que muitos sacerdotes da nova geração acabaram deixando o ministério”, pondera.
Embora a Diocese de Bauru não divulgue dados oficiais a respeito do tema, a reportagem apurou que a região abriga cinco “ex-padres”, pelo menos: dois que haviam se ordenado por volta dos anos 60 e 70 e três que assumiram o sacramento há menos de dez anos.
Natural de Gália, Guerino Ninin entrou para o seminário quando tinha 15 anos. “Embora fosse jovem e nunca tivesse namorado ‘firme’, eu possuía plena convicção a respeito da vocação que iria assumir”, garante ele, que foi ordenado aos 27 anos e esteve à frente de paróquias em Avaí e Bauru (a de São Sebastião, na Vila Cardia).
Se Ninin, hoje com 71 anos, tinha tanta certeza, então por que “deixou” o ministério? “Eu me sentia como se estivesse arrastando algo extremamente pesado. Naquela época (final da década de 60 e início dos anos 70), o mundo estava se abrindo rapidamente e a Igreja permanecia fechada demais. Foi quando decidi pedir minha renúncia a dom Cândido Padin (que na época era bispo diocesano de Bauru)”, conta padre Guerino, que mais tarde se tornaria funcionário do Instituto Lauro de Souza Lima (onde, por sinal, acabou conhecendo sua futura esposa, Ana Hirata) e professor universitário.
Vocação e família
Entre os fatores que levaram Ninin a deixar o ministério presbiteral, a proibição de poder constituir uma família imposta pela regra do celibato teve papel fundamental. Então ele não tinha vocação para ser padre, alguém argumentaria. As coisas não são bem assim.
“Presbiterato e o celibato não estão colados um ao outro. O sacerdócio é um sacramento que alguém carrega consigo para a eternidade; já a decisão da pessoa de não se casar para poder se dedicar integralmente ao trabalho de evangelização é um carisma, ou seja, um dom que o Espírito Santo concede a determinados indivíduos e a outros não”, explica o arcebispo de Botucatu, dom Aloysio José Leal Penna.
Para o arcebispo, o celibato é algo positivo, pois permite que o sacerdote se doe integralmente ao povo e aos trabalhos missionários. “Houve épocas, nos primórdios da Igreja, em que o celibato não era obrigatório. Inclusive, há indícios de que os apóstolos de Jesus, à exceção de João, teriam sido casados”, lembra.
De acordo com ele, a proibição dos padres adquirirem matrimônio pode ser abolida a qualquer momento. “Tudo depende da vontade do papa de liberar ou não os sacerdotes dessa obrigação - embora eu acredite que Bento XVI dificilmente tornaria o celibato facultativo”, avalia dom Aloysio.
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Parte da vocação
Celibato é parte essencial do “ser padre” ou uma regra não inerente ao sacerdócio? Eis a questão que tem atormentado a cabeça dos teólogos católicos ocidentais nos últimos 900 anos. Nas fileiras da Igreja, as discussões são acirradas. O Vaticano, por exemplo, não dá sinais de que, pelo menos por hora, vá dispensar a obrigatoriedade do presbítero ser solteiro.
Entre os padres celibatários, é forte a idéia de que a opção de não formar uma família para poder se dedicar integralmente às obras de evangelização é uma graça concedida por Deus e, portanto, faz parte da vocação do sacerdote.
“No dia em que decidimos nos ordenar, já sabíamos que precisaríamos ser celibatários”, diz o padre Claudemir Moreira, reitor do Seminário Diocesano de Bauru Maria Rainha dos Apóstolos. Para ele, o argumento de que muitas pessoas ainda são imaturas em matéria afetiva quando entram para o seminário também não é válido. “Temos uma longa caminhada de preparação (cerca de oito anos) até nos tornarmos sacerdotes de fato. Esse período permite que o jovem reflita bastante sobre essa questão”, afirma.
Sacerdotes casados e pessoas contrárias à obrigatoriedade da regra, por sua vez, acreditam que o celibato não é algo inerente ao presbiterato. “Essa exigência (da pessoa estar e permanecer solteira para poder se ordenar) passou a constar na legislação da Igreja apenas em 1917”, afirma o professor de teologia Armando Holocheski, presidente do Movimento dos Padres Casados (MPC).
De acordo com ele, o celibato só faz sentido para indivíduos que têm vocação para permanecer solteiros. “Se a pessoa não tiver esse dom, acabará se tornando amarga e não conseguirá ser um bom padre”, afirma.