Mesmo casados, eles continuam sendo “sacerdotes para sempre”, tal como está escrito no salmo 110. Para a Igreja Católica, o sacramento da ordem é algo que o indivíduo carrega consigo pela eternidade.
Padres que renunciaram a suas funções e se casaram agora lutam para poder atuar de maneira ativa nos trabalhos de evangelização promovidos pela Igreja. “Queremos que, aos poucos, defina-se uma maneira para que aqueles que ficaram à beira do caminho possam exercer seu ministério (do sacerdócio)”, explica o professor Armando Holocheski, ex-presidente do Movimento dos Padres Casados (MPC).
Na semana retrasada, ele esteve presente ao 12.º Encontro Nacional de Presbíteros, ocorrido no Mosteiro de Itaici, no município paulista de Indaiatuba. Acompanhado da esposa, Altiva, Holocheski teve a oportunidade de conversar durante alguns minutos com o cardeal dom Cláudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero, do Vaticano.
Os ecos provocados pelo encontro entre os dois criaram estardalhaço na imprensa e fizeram com que o evento fosse noticiado até pelo diário espanhol “El Pais” (que, dias atrás, publicou matéria a respeito da polêmica em torno do celibato).
“Nós, que estávamos participando do encontro, não fazíamos idéia de que esse assunto pudesse alcançar tanta repercussão por parte da mídia”, diz o padre Marcos Pavan, pároco da Igreja de São José, de Gália, e representante dos presbíteros na diocese de Bauru.
“Não entendi o porquê de tanto alarde. Tudo o que fiz foi me dirigir a dom Cláudio e dizer que nós, padres casados, estávamos prontos para contribuir com os trabalhos de evangelização da Igreja”, disse Holocheski em entrevista por telefone ao Jornal da Cidade. Durante a conversa com o cardeal, ele defendeu que a Igreja readmitisse os sacerdotes que renunciaram a suas funções.
Durante entrevista coletiva concedida minutos após o encontro com Holocheski, dom Cláudio teria dito que “celibato é um tema sobre o qual a Igreja não tem intenção de se manifestar, por enquanto”.
Bem aceitos
Em geral, padres casados costumam apresentar boa aceitação por parte dos fiéis. Esse, aliás, é um dos argumentos utilizados pelo MPC para defender a readmissão do “ex-sacerdotes” ao ministério da Igreja.
Hoje, é comum encontrar padres casados atuando nas linhas de frente da Igreja, porém no papel de leigos. Holocheski, por exemplo, é professor de teologia no Seminário Diocesano de Guarapuava, região oeste do Paraná.
O bauruense Guerino Ninin é outro que se mantém ligado à Igreja, mesmo depois de haver renunciado ao ministério. “Continuo exercendo o ‘sacerdócio’, só que de uma forma diferente”, diz. Atualmente, ele ministra cursos de iniciação à teologia voltados para leigos na Diocese de Bauru e também é responsável pela pastoral dos povos indígenas em Avaí.
Nem todos os “ex-padres”, porém, têm condições de se dedicar aos trabalhos pastorais da maneira como gostariam. Casado e pai de duas crianças (uma de 5 e outra de 3 anos), o professor José Agostino Salata já não dispõe de tanto espaço em sua agenda para estar à frente de atividades promovidas pela Igreja Católica em Dois Córregos.
“Como dou aula à noite, não sobra muito tempo para ajudar nas missas”, conta Salata, que, ao lado da esposa, Elaine, é vocalista de uma banda de forró e sertanejo e costuma colaborar com o ministério de música da paróquia.
Natural do município paulista de Novo Horizonte, Salata se tornou sacerdote aos 31 anos e renunciou ao ministério 11 anos após ter sido ordenado. Em 2000, ele chegou a ser eleito prefeito de Dois Córregos (cidade onde foi pároco) pelo PDT, prova de que, pelo menos por ali, a popularidade do “ex-padre” continuou em alta, mesmo após ele haver “largado a batina”.