Embora fazendo a coisa certa, o governo do Estado de São Paulo está comprando uma briga de dimensões oceânicas. Ele pretende premiar, com três ou mais salários extras por ano, os 250 mil professores da rede pública.
Se objetiva aumentar o ganho dos docentes, por que seria alvo de críticas contundentes e - pelo já lido e ouvido - levianas por parte de seus representantes? Pela simples, excelente e justa razão de que só terão direito aos rendimentos extras os profissionais da educação que apresentarem resultados satisfatórios, contribuírem para que os alunos aprendam na sala de aula o que precisa ser de fato apreendido (e não o que passa na sua cabeça) e - pasmem! - não continuarem a fugir do trabalho como o Cascão do banho.
A propósito: 13% dos professores da rede pública estadual faltam todos os dias às aulas. A maioria não tem desconto algum no contracheque. Sabem por quê? Porque uma legislação corporativa e caduca – me perdoem pelo pleonasmo – lhes faculta o “benefício”.
Aliás, já que se vive no país das apurações, por que não instalar uma CPI para averiguar essa questão. Quais são e quem são os médicos que distribuem tantos atestados? Os atestados são sempre fornecidos aos mesmos professores? Será que os doutores lucram alguma coisa com isso? Que diabo! Não conseguem nunca dar um jeito na saúde de seus pacientes? Se estes estão com a saúde tão arruinada assim, precisam de tratamento e licença. Por que não se afastam do trabalho, se estão impossibilitados de trabalhar? Se agissem assim, dariam aos alunos a chance de ter aulas com professores substitutos.
Onde está, afinal, o erro do governo que o levaria a ser alvo de toda sorte de impropérios por parte das entidades de classe e dos petistas em geral, sempre tão empenhados em garantir privilégios aos seus?
Não há erro, ao menos no que se refere à filosofia da proposta. O projeto detalhado ainda não foi tornado público. É provável, sim, que mereça correções aqui e acolá. Até porque inexiste proposta que não seja passível de aprimoramentos, assim como está para nascer quem não precise ser fiscalizado – muito embora os áulicos do Palácio do Planalto estejam convencidos (mais por conveniência que por convicção) que os ecônomos do presidente possam gastar o nosso dinheiro a seu bel prazer e sem dar satisfação a ninguém, em nome da segurança nacional.
O problema está na cabeça conturbada dessa gente que se pretende com mais direitos que outros por pertencer à determinada categoria. Dessa gente que abomina a meritocracia, a competência, qualquer tentativa de se tornar o Estado brasileiro minimamente eficiente. E que, portanto, considera justo que se pague salário igual a todos que exercem a mesma função, indistintamente. Não medem esforços para que os piores contaminem os melhores.
Se 13% dos professores da escola particular em que seu filho está matriculado faltassem diariamente, o que você faria? Então, por que você tolera que isso ocorra na rede pública? Ainda que não tenha filho nela matriculado, o dinheiro que ali é investido também é seu. Não pode ser desperdiçado.
O fato é que a “coisa pública” foi tomada, por assim dizer, de assalto pelas corporações. As minorias falam pelas amplas maiorias. E, em seu nome, cometem as maiores barbaridades. Com a nossa anuência, inclusive. Transformaram os servidores públicos em “coitados”. E nós, que temos uma das mais altas cargas tributárias do mundo, recebemos serviços que apenas os “coitados” podem nos dar. O Brasil é um país de choramingas.
O autor, Orlando Silveira, é jornalista