O governo federal prepara um pacote de medidas para incrementar a atividade produtiva em 25 segmentos - incluindo o calçadista, com forte atuação na região de Bauru - e socorrer setores da indústria paulista fragilizados com a concorrência externa por meio da facilitação de crédito para modernização dos parques fabris.
A informação é do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, em entrevista exclusiva concedida à Associação Paulista de Jornais (APJ).
O conjunto de ações oficiais pró-indústria está materializado no projeto da “política industrial”, encaminhado por Miguel Jorge ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e que aguarda a votação do Orçamento para ser anunciado e mensurado em termos de montante de recursos.
“O principal é você procurar modernizar e fazer com que estes pólos sejam mais produtivos e eficientes. Com a facilitação de compra de equipamentos, financiamentos. É preciso modernizar esta indústria. Você não conseguirá competir no mercado internacional se não tiver produtividade e preço. Você não vai conseguir preço se não tiver produtividade”, diz o ministro.
Entre os segmentos contemplados pelo pacote estão o automotivo, o calçadista, o têxtil e o aeronáutico. Além de impulsionar as exportações e abrir novas linhas de financiamento, o ministério planeja aumentar o índice de nacionalização de peças e fornecedores.
Miguel Jorge, 62 anos, aposta ainda na superação de divergências ideológicas entre PT e PSDB para desenvolver uma estratégia conjunta de estímulo aos Arranjos Produtivos Locais e Parques Tecnológicos, envolvendo a União e o governo estadual. “Temos nos reunido com o secretário Goldman (Alberto, Desenvolvimento) e com o adjunto Luciano (de Almeida). É você fazer que a parceria funcione dos dois lados. Se o Estado desenvolve, nós temos ferramentas para ajudar.”
Leia a seguir os principais trechos da entrevista em que Miguel Jorge aborda outros temas polêmicos como o câmbio, a taxa de juros, privatizações e a reforma tributária.
Pergunta - Quais medidas da nova política industrial, apresentada pelo senhor ao presidente Lula, contemplarão os pólos produtivos do Estado de São Paulo, especialmente os mais fragilizados pela competição externa e pelos elevados custos de produção?
Miguel Jorge - No caso dos pólos em dificuldades, como o de tecidos, o de calçados, já foram tomadas medidas especiais. E na política industrial, se aprofunda um pouco isso e se tentará uma coordenação maior dos vários órgãos de governo envolvidos na questão.
Pergunta - Como seria esta ação coordenada?
Miguel Jorge - O principal é você procurar modernizar e fazer com que estes pólos sejam mais produtivos e eficientes. Com a facilitação de compra de equipamentos, financiamentos. É preciso modernizar esta indústria. Você não conseguirá competir no mercado internacional se não tiver produtividade e preço. Você não vai conseguir preço se não tiver produtividade. No caso dos calçados, por exemplo, como o processo já começou há um ano, já se percebe uma mudança de tendência. O último relatório da Abicalçados mostra que os calçados não só aumentaram as exportações, 3,5%, mas aumentaram especialmente o preço da unidade vendida. Em valor, 7% do valor exportado. Isso significa o que? Que o pólo calçadista está vendendo um produto de maior valor agregado. Sempre digo que não conseguiremos concorrer com os chineses em produtos de US$ 2, por exemplo, pois eles têm uma quantidade enorme de mão-de-obra, com salários muito aviltados para os nossos padrões, de US$ 40 por mês. E também porque eles têm um sistema de trabalho que é incompatível com as regras daqui. Não conseguiremos concorrer com quem trabalha seis dias por semana, sem hora-extra, sem férias, sem décimo terceiro, sem proteção social. Nós temos que nos diferenciar nos produtos que fazemos.
Pergunta - Quando se fala em 25 segmentos que seriam contemplados nesta nova política industrial, incluem-se aí quais setores especificamente?
Miguel Jorge - Já existe um mapeamento. No caso de São Paulo, a indústria automobilística, por exemplo. Tem uma forte concentração em São Paulo. Apesar da desconcentração nos últimos anos. Não só com relação às montadoras, com as autopeças. Tem autopeças no interior, em Araraquara, Campinas, Grande ABC. No caso da indústria automobilística, o salto tem que ser dado. Um passo adiante. O Brasil produziu este mês, pela primeira vez desde que a indústria está aqui, em 50 anos, três milhões de veículos. Um pouquinho mais, com a produção anualizada, de janeiro a janeiro. A capacidade instalada está no máximo. Ela é de três milhões e meio. As fábricas de caminhões e ônibus, especialmente, estão trabalhando sábado, domingo, para atender o mercado. E, mesmo assim, especialmente os pesados têm espera de quatro, cinco ou até seis meses. Isso não só pelo fato de que não conseguem produzir mais como também auxiliado pelo crescimento da agricultura, já que estes caminhões são usados para o escoamento da safra.
Pergunta - Em que sentido se daria este salto? O governo tem condições de interferir para aumentar esta capacidade?
Miguel Jorge - Nós queremos, com a política industrial, chegar a 2010 com a capacidade instalada de cinco milhões de veículos. Que é o que consideramos um número importante para que você possa ser competitivo e possa enfrentar os países que estão entrando pesado na produção de automóveis, como a China, a Índia.
Pergunta - E em outros pólos industriais?
Miguel Jorge - Você tem o caso do parque aeronáutico. Queremos também fazer com que haja um novo salto. Novos fornecedores fazendo com que haja maior produção de peças no mercado interno e não importados. No caso dos helicópteros, por exemplo, temos um plano de produzir novos helicópteros no Brasil, mas também fazer com que os índices de nacionalização, que são baixos, aumentem com a promoção de novos fornecedores no País.
Pergunta - Neste mapeamento tem se descoberto algum tipo de nova vocação?
Miguel Jorge - O caso, por exemplo, dos equipamentos médicos. A idéia é fazer com que a política de compras do governo possa alavancar a criação de novos parques tecnológicos. O Brasil é um grande importador de aparelhos de hemodiálise, nós não fabricamos aqui. Ou mesmo um raio X de última geração. Estamos em negociação com estes fabricantes, que são hoje exportadores para o Brasil, para que eles venham produzir aqui e possamos ter uma plataforma de exportação para a América Latina.
Pergunta - Como o senhor observa esta espécie de leilão da indústria automotiva por regiões de custo inferior de produção? De alguma forma esse tipo de movimento pode implicar perda ou flexibilização de direitos dos trabalhadores do setor?
Miguel Jorge - Eu acho que é irreversível. Não é um processo novo. É um processo de desconcentração que começou com a Volks, com a fábrica de Resende, de caminhões e ônibus. Isso se deve a vários fatores, não apenas à questão salarial. Tinha a questão de logística, havia uma concentração muito grande em São Paulo. Já havia na época uma previsão de um mercado livre para o Mercosul. A GM, por exemplo, foi para Gravataí (RS) pensando na liberalização do comércio entre Brasil e Argentina. Além disso você tinha a questão salarial. A Fiat, em Belo Horizonte, já paga salários menores que os pagos em São Paulo. Os salários têm um peso razoável na formação de custo do produto. Se você tiver em região onde o salário é menor, você terá um custo menor e, portanto, ficará mais competitivo.
Pergunta - Entre os Estados, a disputa ocorre mais no aspecto fiscal...
Miguel Jorge - Este processo todo da disputa entre os Estados ocorreu no âmbito da guerra fiscal, que agora a gente pretende mexer com a proposta de Reforma Tributária, que foi para o Congresso na semana passada. Você tenta resolver a questão do ICMS, dos benefícios fiscais dados pelos Estados. Agora, as novas empresas sempre procurarão vantagens competitivas para se instalar. Acho difícil, por exemplo, que uma indústria, a não ser que tenha especificidades muito fortes, se instale em área de alta concentração industrial. Porque há dificuldade logística, de qualificação de mão-de-obra. A tendência, que é salutar, é ter uma desconcentração industrial no País.