Nacional

Bolsa-Família não faz com que crianças completem ao menos o ensino fundamental

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Lagoa dos Gatos - O mais importante programa social do governo Lula, o Bolsa-Família, que atende quase um quarto da população do País (45,8 milhões), não está conseguindo fazer com que as crianças completem ao menos o ensino fundamental, pulando assim da 8ª série para o ensino médio.

Cruzamento de informações feito pela reportagem, com dados dos Ministérios do Desenvolvimento Social e da Educação, revela que nos 200 municípios onde há mais famílias dependentes do Bolsa-Família a evasão escolar, contando os abandonos da 1ª a 8ª séries, cresceu entre 2002 e 2005.

Em alguns casos, a evasão mais do que dobrou em cidades que têm pelo menos metade da população no programa social - do município de Saloa (PE), com 58,4%, até Pedro Laurentino (PI), com 83,7%.

A evasão escolar cresceu em 45,5% dos municípios (91) com mais atendimentos do Bolsa-Família. Em outros 18,5% (37 cidades) a evasão não teve nem piora nem melhora significativas - a variação foi de menos de 1 ponto porcentual para mais ou para menos.

Juntas, a piora da evasão e a manutenção da péssima realidade escolar somam 64%, isto é, em mais da metade dos municípios pesquisados (118) a evasão escolar ou não melhorou ou só piorou.

O ano de 2002 foi o último antes do início do Bolsa-Família, e 2005, o ano com dados oficiais disponíveis.

Os 200 municípios registram um fenômeno político: o desempenho do candidato Luiz Inácio Lula da Silva entre os segundos turnos de 2002 e de 2005.

Da eleição para a reeleição, o presidente aumentou os votos em todas as cidades com mais população atendida pelo Bolsa-Família, registrando, em alguns casos, votações fenomenais: os 3.408 votos de Araioses (MA), em 2002, viraram 12.958 votos na campanha da reeleição; os 2.996 votos de Girau do Ponciano (AL) subiram para 12.550 votos.

Acauã, uma das cidades-símbolo do programa Fome Zero, visitada por ministros no primeiro ano do governo Lula, tem 71,6% de suas famílias no Bolsa-Família.

O abandono escolar subiu de 4,4% para 12%. Em 13 cidades, o índice passou de 20% dos estudantes largando a escola, um número considerado assustador pelo próprio Ministério da Educação.

Em Lagoa dos Gatos (PE), uma das cidades visitadas pela reportagem, o abandono passou de 8% para 17,6% em apenas três anos.

Explicações

O que aconteceu nessas cidades?

Entre as muitas explicações, duas são claras: as famílias obrigam as crianças com idade até 15 anos a ficar na escola só para ganhar o Bolsa-Família, liberando-as dos estudos a partir dos 15, uma idade em que a maioria não conseguiu passar da 5ª série, mas quando o programa social deixa de pagar pelos estudos.

O Bolsa-Família paga R$ 58 e mais R$ 18 por filho entre 0 e 15 anos para famílias com renda per capita de até R$ 60, desde que eles estejam na escola e haja acompanhamento de saúde para os menores de 6 anos.

Depois que o filho completa 15 anos, automaticamente a família deixa de receber a parcela referente àquela criança e a renda diminui.

“Quantas vezes não ouvimos de professores ‘aquela criança só está aqui por conta do Bolsa-Família’”, diz a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar Almeida e Silva.

Manter as crianças na escola até garantir pelo menos que concluam a 8ª série do ensino fundamental é uma das metas do Bolsa-Família.

Seria uma forma de fazer a população mais pobre ter escolaridade melhor e um futuro menos incerto. Ao estabelecer a idade de 15 anos como limite para o pagamento, o programa deixa para trás boa parte dos meninos e meninas mais atrasados - na média, os estudantes pobres estão três anos abaixo da série em que deveriam estar.

No dia-a-dia das escolas, é essa a realidade que diretores e professores encontram. “Os meninos pequenos ficam na escola. Nos períodos da manhã e da tarde a evasão é baixíssima. Mas a partir dos 15 anos eles mudam para o turno da noite e acabam não voltando mais. Não têm estímulo para estudar”, conta Juliana do Nascimento, diretora da Escola Municipal Cordeiro Filho, em Lagoa dos Gatos.

“Alguns chegam a ameaçar tirar o filho da escola porque eles têm de trabalhar”, diz Maria Luciene.

Os dados nacionais confirmam a experiência das professoras.

Números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que apenas 5% das crianças de 7 a 14 anos abandonam a escola. Entre 15 e 17 anos, essa evasão sobe para quase 20%.

São quase 2 milhões de jovens que ficam sem escola, sem trabalho e sem futuro.

Comentários

Comentários