Orlando de Oliveira era um andarilho. Sem nada, sem família, sem sonhos nem objetivos, uma vida vazia. Seu único refúgio era a cachaça, que tomava às vezes até cair. Um dia foi recolhido na rodovia por uma alma boa e levado para uma pequena chácara para ali morar e cuidar. Duas construções antigas, uma pequena casa e um galpão para guardar objetos em desuso e ferramentas de pequeno porte. A casa era tipicamente de sítio, nunca entrei. Ao seu redor uma pequena horta de cebolinha, alguns pés de goiaba, abóbora e mais nada. Energia elétrica não tem, água potável vem de um poço profundo puxada por uma bomba à gasolina (doação). Esse pequeno pedaço de terra foi batizado com o nome de “Formigolândia” (nome esse que foi designado para o Cocal e que ninguém conhece o autor).
Ali se reúne aos sábados e feriados uma gente muito especial, um grupo de pessoas (só homens) de terceira idade quase todos com dons de culinária. O prato escolhido é sempre decidido na véspera, tais como feijoada, rabada, galinhada, costela de chão, peixada - todos acompanhados de uma polenta que é quase um angu mineiro.
Como antepasto salada de tomate, pepino, mortadela, aliche, sardela e beringela em conserva (massa). Bebidas cada um leva a sua. O quanto se come? À vontade: um, dois pratos até se satisfazer. A chamada do cozinheiro (Daré) é característica: “Pessoal, a comida está pronta”. Não falta os aperitivos - caipira de vodka, maracujá e um bom vinho.
Fim de tarde - silêncio que a mata irradia, mesa de truco se desfazendo. Alguns já vão embora, outros cochilam nos bancos rústicos e a passarada começa a sinfonia do fim de tarde. Faz-se o rateio para o acerto com os gastos. Fim da Formigolândia. Vi no jornal de hoje. Orlando na 1.ª página recolhendo seus pertences. Quase chorei, mas como tudo na vida é uma página, vamos virar a folha.
Guardo comigo a imagem do Orlando, sempre rindo com a falha na dentição da frente, recebendo os amigos com sinceridade de criança. Ali na Formigolândia ficava também todo nosso stress e as gargalhadas saíam espontaneamente com a palhaçada dos velhos (com meus respeitos). Espero que o Cocal sirva seu verdadeiro objetivo - reflorestar, e que os dois prédios velhos sejam demolidos para não servir de esconderijo de bandidos e drogados.
Adeus, Formigolândia.
Sergio Graciani