Andando pelas ruas e avenidas de Bauru para observar o comportamento de pedestres e motoristas, fica mais fácil compreender porque a cidade registrou 233 acidentes de trânsito envolvendo pedestres em 2007, o que resultou em um atropelamento a cada um dia e meio, de acordo com dados do Destacamento de Trânsito da Polícia Militar (PM) de Bauru.
Foi o que fez a reportagem do JC. Incumbida dessa tarefa, a equipe acabou po assistir a homens mulheres e até crianças insistindo em atravessar as ruas e avenidas da cidade em local proibido, num claro desrespeito à sinalização.
Isso acontece até mesmo nos sete locais em que foram instalados os semáforos com botoeiras, isto é, com equipamentos em que o pedestre aciona por meio de botão o fechamento do tráfego para veículos.
Mesmo com o comando do tráfego ao alcance das mãos, os usuários preferem atravessar ruas e avenidas de tráfego rápido como a Nações Unidas, na rotatória do Jardim Contorno, sem acionar a botoeira, portanto com o sinal aberto para os veículos, colocando a própria vida em risco.
Michele Fernanda da Costa diz que passa pelo local todo dia enquanto se dirige para o trabalho e nunca usa o artifício da botoeira. “É costume, estou sempre atrasada. Olho para a avenida e, se não vem nenhum veículo, atravesso correndo”, conta. Ela garante que o procedimento é seguro e quer usar a botoeira do semáforo, às vezes, pode significar perda de tempo.
Assim como ela, muitos pedestres fazem o mesmo, o que torna o comportamento de Eduardo Henrique Urquisa uma exceção. “Prefiro não arriscar e usar a botoeira sempre que preciso atravessar a avenida. Se foi colocado aqui, é porque existe um motivo. Se é para usar, por que correr risco desnecessário? Nesse caso, a pressa é inimiga da vida”, opina.
Alguns condutores também não respeitam a sinalização. O motorista Oswaldo Bellini garante não se incluir nesse grupo e diz parar sempre no sinal vermelho, em razão de já ter sido vítima de um motorista que não respeitou a sinalização na cidade. “Me envolvi em um acidente de trânsito há cerca de oito anos onde eu estava certo, mas o outro motoristas não observou a parada obrigatória e ocorreu o acidente”, conta Bellini.
Além da Nações Unidas, outro local na cidade em que o desrespeito à sinalização é freqüente é o Calçadão da Batista. Em pouco tempo assistindo ao movimento, a reportagem constatou homens, mulheres e crianças não darem a ‘mínima’ para a sinalização existente.
Indagados, cada um tem sua desculpa na ponta da língua. Maria Aparecida do Nascimento, que atravessou a rua Treze de Maio, que corta o Calçadão, com sinal fechado para os pedestres, é um deles. “Eu sei que atravessei na hora errada, mas olhei para os dois lados e não havia nenhum veículo por perto”, justificou.
José Antonio da Silva também foi flagrado pela reportagem atravessando a rua como o semáforo vermelho para os pedestres e justificou dizendo que estava atrasado demais para esperar o sinal.
Mas mesmo com o sinal aberto, os condutores precisam redobrar a atenção no local. A todo momento, pedestres insistem em dividir cada espaço das ruas com os veículos que circulam no local em velocidade superior à permitida.
De acordo com o capitão João da Costa Duarte, comandante da 1.ª Companhia da Polícia Militar, quando a infração é cometida pelo pedestre, a situação é mais complicada. Embora o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) faça menção a possíveis punições para os pedestres mal-educados, é praticamente impossível puni-los.
De acordo com Costa Duarte, nem mesmo se a Polícia Militar tivesse disponibilidade para colocar um guarda de trânsito em cada esquina a situação mudaria. “É um questão de hábito, de educação”, completa.
Em Londrina (PR), com o investimento em educação preventiva por meio de campanha e atuação de policiais, os pedestres atravessam a faixa de pedestres no calçadão central apenas quando o sinal está aberto para eles. Nem mesmo o fato de não haver carros quando o sinal está fechado motiva a infração.
O delegado da 5º Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran), Adib Jorge Filho, lembra que o próprio código em diversos artigos diz que o pedestre tem a preferência em relação ao veículo, mas atravessar com o sinal fechado continua sendo considerado infração de trânsito.
O capitão também aponta outra falha dos motoristas e pedestres e que resulta em multa: o uso de celulares. De acordo com Costa Duarte, atravessar a rua ou dirigir falando ao celular aumenta em cerca de três vezes os riscos de acidentes.