No início do século 20, uma jovem é forçada pelo marido a se estabelecer, juntamente com sua mãe, em um isolado lugar de dunas, na região dos Lençóis Maranhenses. Depois da morte do marido e o nascimento da filha, as três gerações de mulheres são obrigadas a viver sempre naquele mesmo lugar, longe da civilização. Porém, algo paradoxal acontece. Justamente por permanecerem no mesmo lugar, aprendem a perceber que a vida é dinâmica e que o tempo possui seus sinais.
As areias das dunas se movimentam modificando a paisagem de tempos em tempos e o céu lhes revela as mudanças do universo natural e humano: a passagem do cometa Halley, o eclipse solar de 1919, os aviões da 2.ª Guerra Mundial e, em 1969, a chegada do homem à Lua. O esforço do homem diante do tempo não consiste em simplesmente vê-lo passar, mas verdadeiramente interagir com seu conteúdo. Esta é uma das temáticas encontradas no maravilhoso filme de Andrucha Waddington “Casa de Areia”.
Não raramente, possuímos a tendência de viver antecipadamente o nosso futuro. Nos angustiamos muitas vezes com as preocupações do que pode vir a acontecer ou então nos sentimos contagiados pela alegria da possível realização de nossos sonhos e planos. Outras vezes, gostamos de viver das lembranças de nosso passado. Assim, nos atormentamos com as más experiências que tivemos ou sentimos o prazer de recordar, com grande nostalgia, os tempos nos quais fomos muito felizes. Se não estamos, de certa forma, no passado ou no futuro, somos levados pelo ritmo acelerado do cotidiano a viver o tempo presente de uma forma extremamente superficial.
Com o acúmulo de atividades e afazeres, sentimos o tempo voar, os dias e semanas fluírem sem que estejamos despertados para vivê-los realmente. Antecipando um futuro que talvez nunca exista, recordando de um passado que, com certeza, não mais viveremos ou experimentando o dia-a-dia em sua superficialidade, nós perdemos a chance de viver o verdadeiro conteúdo do momento presente.
Nos três modos de experimentar a vida, corremos o risco de perder o convite, a invocação, aquilo que cada momento tem para nos oferecer. Os antigos gregos davam ao apelo de cada tempo o nome de kairós. Cada momento que experimentamos possui uma exigência, seu kairós, ou seja, aquilo que ele nos dispõe, seu conteúdo mais profundo: a convivência com aqueles que amamos ou detestamos, a conversa que podemos ter com alguém ou a solidão para nos descobrirmos melhor, aquela decisão que podemos tomar neste exato momento ou a atitude de não fazer nada, um encontro inesperado ou a oportunidade de visitar alguém que desejamos.
Se o tempo é generoso nos oferecendo oportunidades a cada instante, ele é, ao mesmo tempo, cruel. Pois, como dizia Heráclito, o universo, como as dunas no Nordeste, encontra-se em constante transformação e transitoriedade. Na vida tudo é passageiro. Tudo flui, nada fica; por isso nunca podemos mergulhar duas vezes em um mesmo rio. Cada momento, cada tempo possui seu kairós, seu chamado a uma decisão, decisão esta que direciona o nosso rio chamado vida.
Este conteúdo do tempo é uma constelação única e particular; uma vez oferecido, nunca mais o teremos novamente. Dependendo da forma como vivemos esta oferta do momento, marcamos tanto nosso passado como também nosso futuro. O desafio do viver no tempo é estar atento ao conteúdo do presente e ser sábio o suficiente para interagir com ele. “Mantenha o infinito em suas mãos e a eternidade em um momento” (William Blake).
Muitas vezes, desperdiçamos o prazer, ou até mesmo o desprazer, de viver o momento presente e nos esquecemos que é preferível nos arrependermos do que fazemos, ao invés de nos amargurarmos com o que poderíamos ter feito e não fizemos, justamente porque não fomos atentos o suficiente. Como escreveu sabiamente Dalai Lama: “Só há dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro amanhã; portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar e principalmente viver.”
Este desafio de estar acordado e aberto para o conteúdo do tempo exige, ao mesmo tempo, uma determinada tranqüilidade, uma equilibrada leveza diante da vida e os sentidos aguçados para o que sentimos no exato momento. Sem criarmos expectativas ou estarmos fixados em nossos conceitos pré-estabelecidos precisamos interagir com os acontecimentos com a razão em funcionamento procurando nos questionar sobre o significado de cada fenômeno ou movimento que se apresenta a nossa frente. A isso podemos chamar de meditação ou simplesmente de uma atitude simples de saborear a vida. Somente desta forma alcançamos a liberdade necessária para podermos agir como sujeitos da história que interagem com seu universo de forma ativa, mas consciente.
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