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Justiça ao cardeal


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No fim de uma tarde do outono de 1976, o secretário entrou no gabinete e surpreendeu o cardeal com um papel e o relato de um imprevisto: na portaria estava um jovem, sem documentos, que dizia-se fugitivo da ditadura militar instalada havia seis semanas na Argentina. Estivera no Chile, mas temera pela vida no país do general Augusto Pinochet. Recorreu à arquidiocese de Santiago, onde lhe deram esperança, traduzida em uma única linha naquele manuscrito: “Rua da Glória 446, Rio” – o endereço do Palácio São Joaquim, escritório e residência do cardeal-arcebispo Eugenio de Araujo Sales.

Reproduzo, caro leitor, a abertura de uma bela reportagem do jornalista José Casado sobre d. Eugenio Sales. A matéria especial de O Globo escancara os porões de um período sombrio da nossa história. Apoiada em relatos fidedignos e sólida documentação, o repórter lança um facho de luz numa vida de coragem e coerência. A informação substantiva faz justiça ao cardeal-arcebispo emérito do Rio de Janeiro.

O cardeal Sales foi um dos brasileiros mais prestigiados no Vaticano. Chegou a ocupar 11 cargos nas congregações, conselhos e comissões que ajudam o papa a governar a Igreja. Apontado como administrador competente, d. Eugênio se destacou por uma silenciosa, mas eficiente ação social. Os centros de atendimento a doentes de aids, a criação de um núcleo de formação de líderes na residência episcopal do Sumaré e os debates que promoveu sobre os grandes temas urbanos e sociais sempre estiveram presentes na agenda do cardeal.

O arcebispo, sem estridências, mas com eficácia, teve atuação decisiva na defesa dos perseguidos pelo regime militar. D. Eugenio Sales, de fato, abrigou no Rio mais de quatro mil pessoas perseguidas pelos regimes militares do Cone Sul entre 1976 e 82. Sua força residia em sua autoridade moral. Ninguém tinha coragem de confrontá-lo. Evocando aqueles momentos difíceis, o arcebispo relata um expressivo diálogo com um poderoso militar daquela época. - Chamei o Frota (ministro do Exército do presidente Geisel), no telefone vermelho- conta o cardeal, hoje com 87 anos. - Ele era um “peso-pesado”, aliás “pesadíssimo”. E falei: “Frota se você receber comunicação de que comunistas estão abrigados no Palácio São Joaquim, de que estou protegendo comunistas, saiba que é verdade, eu sou o responsável. Ponto final, ponto final.” Ele nunca disse nada, nunca reclamou e nem fez cara feia.

Zeloso com a autonomia da Igreja, sublinha a reportagem, desconcertou o comandante de Salvador, general Abdon Sena, que lhe pediu missa pelo aniversário do instrumento mais simbólico da ditadura, o Ato Institucional Número 5. - Vocês que estão satisfeitos com o AI-5 podem agradecer a Deus, mas não por meu intermédio- respondeu o cardeal.

Tais episódios históricos são um retrato de corpo inteiro do caráter do arcebispo emérito do Rio de Janeiro. Firme e contundente na condenação ao marxismo, d. Eugenio não se omitiu na defesa da vida de inúmeros comunistas. Viveu ao pé da letra o espírito cristão: firmeza com o erro e compreensão com o equivocado. Diplomático, discreto e afável, o cardeal Sales foi (e continua sendo) uma das personalidades com maior trânsito no mundo político, empresarial e cultural do País. Sua abertura, no entanto, jamais o levou a transigir com os princípios defendidos pela Igreja. Sua força brota da sua coerência. Uma das marcas que deixará impressa na história Igreja do Brasil é a sua irretocável fidelidade ao papa e ao Magistério da Igreja. D. Eugênio – que, certa vez, se definiu como uma “xerox do papa”- é uma figura central no processo de mudança que está ocorrendo na Igreja brasileira, no sentido de torná-la mais sintonizada com Roma.

D. Eugenio jamais se omitiu na necessária defesa dos direitos humanos. Foi corajoso e acolhedor. Mas soube apostar na capacidade transformadora de uma Igreja que, embora deva caminhar num ambiente pluralista e fortemente marcado pelo subjetivismo, não pode renunciar aos traços essenciais de sua fisionomia milenar.

O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia. E-mail: difranco@ceu.org.br

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