Auto Mercado

Dr. Automóvel: Veículos adaptados

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Tenho sido regularmente procurado por pessoas que querem fazer em casa seus veículos adaptados e pedem para que eu assine o projeto como engenheiro responsável. Contratar-me como profissional para desenvolver um projeto é uma coisa, agora colocar meu nome em qualquer gambiarra ambulante é outra bem diferente.

Qualquer veículo ao ser concebido deve ter um propósito. Em função do que se espera dele, diversas premissas devem ser postuladas antes de se começar a cortar tubos e soldar chapas. Se for um jipe para ultrapassar barreiras de pedras ou alagados profundos, o projeto deve considerar o elevado movimento torsional do chassi, amplitude da suspensão e movimento das molas e amortecedores, assim como a motorização completa mais potente, com embreagem e câmbio compatíveis com o novo torque disponível, assim como cruzetas, cardans, diferenciais e toda a transmissão. O mesmo se aplica aos freios, que precisarão ser maiores e mais eficientes quando molhados, e que devem oferecer a segurança e eficiência que se espera. Enfim, é um projeto complexo e interligado, pois a alteração de um componente importante fatalmente provocará a necessidade de mudança em outros sistemas.

Toda alteração mais radical que mude as características originais do veículo deve ser avaliada por um órgão competente do trânsito para que o veículo seja homologado e legalizado. Algumas alterações simplesmente não são permitidas, como o rebaixamento ou elevação excessivo da suspensão, por exemplo, e não permitirão que o veículo seja homologado para uso em vias públicas, ficando eventualmente restrito a lugares particulares ou fechados.

Mas tem gente que insiste em fazer cada coisa... E depois procuram um engenheiro para “assinar o projeto (!!)”, como se houvesse um. Acham que é simples assim, se tiver a assinatura de alguém responsável estaria tudo certo, o departamento de Trânsito liberaria o documento e a máquina mortífera ganharia vida. Ninguém se preocupa com a segurança tanto mecânica quanto pessoal, dos outros e dele mesmo. Têm a certeza absoluta de que seu talento mecânico de fim de semana é mais do que suficiente para adequar a geometria de direção para a nova altura da suspensão, por exemplo. Aí, tentam fazer uma curva em alta velocidade com um jipe mais alto ainda, e acabam tendo altos papos com o Altíssimo.

Alterar um motor, um chassi ou uma carroceria é uma delícia e algo perfeitamente viável, desde que feito com critérios técnicos e por quem entenda do assunto, mas sempre sai caro por ser artesanal e envolver muita mão-de-obra e peças caras. Querer economizar usando peças recondicionadas ou inadequadas, ou a mão-de-obra não muito confiável de seu vizinho quebrador de galhos, é uma temeridade. Depois vai sair por aí acelerando a barata e colocando a vida de todos em risco.

Recebi outro dia um e-mail de um amigo dizendo: “Tenho um conhecido que está com dificuldade de licenciar e homologar um triciclo com motor de Brasília, construção própria e tem a intenção de fabricá-los em série. Você pode vender seus conhecimentos/consultoria ou assinar como engenheiro responsável? PS: Ele também restaura sucata!”. Sei lá como foi que o cidadão construiu o famigerado, e ainda acha que vou colocar meu nome como responsável pelo “projeto”? E se um dia o troço se desmancha no meio de uma curva, quem é o responsável?

Infelizmente o nosso povo não é nem um pouco preocupado com as conseqüências de seus atos, muito menos com a legislação. Sempre a mesma política de que, se não tem guarda olhando, pode fazer o que quiser, afinal, a impunidade está aí para isso mesmo. Mas a segurança veicular não pode ser descuidada.

Meus carros sempre foram mexidos de alguma forma, seja um motor melhorado, uma suspensão recalibrada ou um acessório especial, como roda de liga leve, pneus maiores, enfim o que todo mundo quer fazer para ter um carro diferente e a seu gosto, mas sempre com critério para não alterar as características originais, pois, afinal, ainda será usado em vias públicas. Transformar um motor para funcionar com gás já requer muito talento e treinamento, mas alguns simplesmente colocam um botijão no porta-malas e aceleram usando o mesmo regulador do fogão... Aí é demais, concorda? Se quer morrer, pelo menos morra sozinho!

____________________

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).

Comentários

Comentários