Já passados mais de 30 anos, a saudade me levou de volta às margens do encantado e decantado rio Aquidauana. Tudo por lá continua bonito e preservado, o arvoredo ainda cobre seus barrancos sombreando as águas limpas, que de forma caramunhadas deixam a serra de Maracajú em direção ao rio Miranda em busca de seu destino natural.
A única e grande mudança que experimentei foi quanto ao nosso meio de transporte. Dessa feita não usamos um vagão da velha e saudosa NOB, alugado exclusivamente para esse fim, mas fomos de carro. Tudo muito rápido e confortável, porém sem o romantismo do velho trem do Pantanal.
Durante a semana de Carnaval, eu e mais quatro companheiros desfilamos naquela passarela pantaneira como se fôssemos verdadeiros reis momo, num misto de barco e chalana, que nos levava rio abaixo por mais de 20 quilômetros até uma fazenda, onde passávamos o dia pescando.
À tarde voltávamos para o conforto da cidade de Aquidauana, onde tive o prazer de assistir uma roda de tereré ao som de harpas, sanfonas e violas, que se sucediam com músicas paraguaias e brasileiras.
Mal cheguei de Mato Grosso do Sul e já estou com saudades. Tempo nenhum conseguirá delir de minha memória momentos tão prazerosos. Em reconhecimento à hospitalidade que desfrutei por lá, me arrisco a escrever uns versos chamamezeiros.
Saudades de Aquidauana
Fui feliz ao visitar Aquidauana hospitaleira
Onde os rios em cachoeiras nas montanhas fazem neblina
Ter nadado em suas águas e feito pescas de barranco
Pisei descalço o chão branco, passeei pelas colinas
Como alguém em plena infância
Feliz sentindo a fragrância
Das flores que ali germinam.
Aos pés de linda montanha esse lugar tão querido
Como um lençol estendido nas margens do Aquidauana
Protegida pela serra e rodeada de lagoas
As almas que te povoam grande amor por ti proclamam
A distância me escraviza
Sinto saudade da brisa
E do sol te inflama.
Um dia terei a honra de rever seus belos prados
Cordilheira, rios e lagos e cachoeiras encantadas
Contemplar emocionado o mais belo alvorecer
Assistir o sol nascer na montanha avermelhada
Lagos emoldurando ruas
A cidade sob a lua
É uma jóia lapidada.
Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias.