Bairros

Rotina extenuante integra trabalho após 22h

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 7 min

Os personagens da noite estão por toda a cidade. Nos bairros ou na área central existem pessoas que trocam o dia pela noite e trabalham como se não soubessem que o período noturno, em princípio, foi feito para o descanso. Como a cidade não pára de crescer, é possível encontrar profissionais de todas as áreas desempenhando seu trabalho. Alguns, essenciais, como os dos profissionais da saúde e da área de lazer, outros, como o de supermercados, começaram há pouco a direcionar seus olhos para a noite e enxergar nela um excelente e promissor mercado.

Maria de Fátima Alves, 52 anos, é uma desses personagens. Assistente de enfermagem há 31 anos, Alves atualmente trabalha em uma das equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Bauru. Orgulhosa por ter conseguido criar os filhos com o trabalho noturno, diz que não consegue se imaginar trabalhando durante o dia.

Sem perceber, a assistente de enfermagem sofre os efeitos da inversão de horário. “Não consigo dormir mais que duas horas por dia. Trabalho a noite inteira e para conseguir dormir de novo na noite que estou de folga preciso passar a maior parte do dia acordada fazendo serviços domésticos”, relata.

Assim como Alves, que trabalha à noite no Samu, outros colegas dizem não sentir os efeitos da troca de horário. Vítor Freneda atua no atendimento de urgência há três anos e depois do trabalho segue direto para a faculdade que freqüenta. “Eu durmo sempre no período da tarde. É deitar e dormir”, conta.

Já sua companheira de equipe Marilene Lombardoso diz que teve dificuldade para se adaptar quando começou a trabalhar à noite. “Trabalho durante à noite e de manhã dou aula em uma curso técnico. Costumo dormir por dia cerca de quatro horas”, relata.

Lombardoso explica que hoje seu organismo já se acostumou com os seus horários de trabalho. “Trabalho à noite e de manhã normalmente e o sono apenas vem no período da tarde, mas posso afirmar que tenho um sono muito leve e acordo várias vezes com qualquer barulho”, relata.

Mesmo quem não trabalha durante toda à noite apresenta problemas para dormir e descansar. Maria Regina Motta, que trabalha em um supermercado da cidade, diz que teve que procurar ajuda médica para conseguir controlar a ansiedade.

Ela conta que trabalha em dois empregos atualmente. “Cuido de um comércio junto com minha filha mais velha durante o dia, no final da tarde vou para casa me preparar para o trabalho no supermercado, onde entro às 18h e só vou sair à meia-noite”, relata.

Motta conta que todo dia chega em caso totalmente exausta, mas nem sempre consegue pegar no sono logo que se deita. “É difícil para que trabalhou das 8h da manhã até a meia-noite se desligar de uma hora para outra. Muitas vezes, passo o dia sem comer e por isso quando chego em casa como de tudo e depois não consigo pegar no sono”, conta.

O taxista Alberto Marques, 56 anos, faz um rodízio de trabalho ainda mais nocivo para a saúde do corpo. De acordo com Maria Rita de Cássia Moratelli Costa, especialista em distúrbios do sono, quando a pessoa trabalha à noite e descansa na noite seguinte, o cérebro passa a não entender quando deve ou não liberar os componentes químicos que fazem as pessoas dormirem.

Marques conta que mesmo no trabalho no intervalo de uma e outra corrida aproveita para tirar um cochilo, mas que realmente não descansa o corpo. “Eu acredito que estou acostumado, trabalhei como caminhoneiro por muito tempo, ainda não percebi nenhum problema para conseguir dormir. Apenas avalio que, mesmo dormindo a noite toda, por muitas vezes, acordo com sensação de estar cansado”, conta Marques.

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Nascidos para a noite

Apesar da grande maioria dos trabalhadores ter hábitos diurnos, há também que goste da noite de trabalhar, estudar e fazer tudo durante à noite. O músico Carlos André Rodrigues, o turco, é uma dessas pessoas, que não troca a noite por nada. “Nos dias em que eu não estou trabalhando (tocando), eu também não durmo”, conta.

Turco conta que há 17 anos só consegue dormir das 6h até as 14h. “Não há problemas se existem pessoas que nasceram para trabalhar à noite e descasar durante a noite. Eu sou uma delas”, garante.

Casado há nove meses, o músico diz que não tem problemas com a esposa por causa do seu horário de trabalho. “Nem na casa dos meus pais eu tinha. Sou o caçula da família. Quando nasci meus pais já eram aposentados e também mudaram seu estilo de vida”, lembra. Para Turco, apenas a inversão de horário não deve ser tão prejudicial. “Acredito que quem exerce duas funções sofre mais para se adaptar”, opina.

Realmente o músico não é um caso à parte. De acordo com Maria Rita de Cássia Moratelli Costa, especialista em distúrbios do sono, as pessoas têm nitidamente preferência pelo horário.

Outro que também não esconde sua preferência em trabalhar durante à noite é o locutor de rádio Ricardo Bizzarra, que já está no ar há sete anos pela 96FM. “O público da noite é diferenciado. Durante o dia não dá para se estabelecer uma relação de amizade com o seu ouvinte, o contrário do que acontece no período noturno, que apresenta um público mais fiel”, narra Bizarra.

Ainda sobre os ouvintes da noite, ele conta que muitos ligam apenas para conversar, estão sozinhos em casa e encontram no locutor da rádio preferida um companheiro.

Bizarra trabalha todo dia das 20h até meia-noite e conta que mesmo depois do trabalho só consegue dormir depois das 3h. “A gente chega em casa com a adrenalina nas alturas. Então eu prefiro estudar e ver TV antes de dormir”, conta.

O locutor diz que raramente tem dificuldade para dormir e que nunca apresentou problemas de saúde por conta do horário não habitual. “Eu percebo que produzo mais durante a noite. Já trabalhei alguma vezes durante o dia e não troco a noite por nada”, garante.

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‘Cada vez durmo menos’

Trabalhar durante à noite exige de cada pessoa atenção redobrada, ainda mais se o trabalhar for feito na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Esta é a rotina do médico cardiologista Cristiano Barros, que atende há vários anos no Hospital Estadual de Bauru (HEB). “A noite do plantonista de UTI é diferente; o trabalho é realizado em constante adrenalina”, define.

Barros diz que, depois de trabalhar por tanto tempo durante à noite, já começa a perceber algumas alterações no seu organismo. “Na verdade tenho notado que durmo cada vez menos. Hoje não consigo ficar na cama por mais de cinco horas, quando o ideal seria cerca de oito”, conta o cardiologista.

O médico relata que se esforça para manter a alimentação de maneira correta quando trabalha no período noturno. “Aqui é fácil porque tanto para os pacientes quanto para quem trabalha no hospital as refeições e os lanches são servidos na hora certa e são sempre preparadas com supervisão de um profissional de nutrição”, explica.

O médico conta que por trabalhar à noite pelo menos três vezes por semana precisa se esforçar para manter um relacionamento familiar saudável. “A gente precisa dar um suporte especial para a esposa e para os filhos”, completa.

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Três horas

Os profissionais do sexo são outros trabalhadores que integram a vida noturna da cidade. A jovem Ana Cristina (nome fictício), 19 anos, faz parte desse grupo e leva uma jornada tripla diariamente.

Ela acorda todo dia às 6h para ir até à faculdade. No período da tarde, trabalha no comércio até por volta das 20h. Até aí nada demais se sua história não incluísse a jornada que, por muitas vezes, segue madrugada afora.

A jovem é garota de programa em Bauru e chega a atender por noite cerca de cinco a seis clientes. “Não trabalho na rua, atendo apenas pelo celular. Depois do trabalho, ligo o celular especial que comprei apenas para isso e atendo os clientes nas casa ou nos motéis da cidade”, conta.

De acordo com ela, todo dia vai dormir entre 2h e 3h da manhã. “Não tenho outra alternativa. Durmo no máximo três hora por dia, gostaria de mudar minha vida, mas para arcar com os custos da faculdade me sujeito a fazer programas”, justifica.

Ana Cristina relata que está há pouco tempo fazendo programas, mas diz que já sente dificuldade para descansar. “Tenho sono constantemente durante o dia, na faculdade ou no trabalho e à noite, quando volto para casa, às vezes brigo para conseguir dormir”, explica.

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