O trabalho noturno durante determinado período pode acarretar em problemas de saúde que com certeza irão acompanhar esse trabalhador por muito tempo, às vezes, por toda a sua vida. A médica Maria Rita de Cássia Morateli Costa, especialista em distúrbios do sono, relata que esses trabalhadores estão mais suscetíveis a problemas como estresse, dificuldade de manter a atenção e memória. Outros chegam a desenvolver doenças como úlcera gástrica, doenças de pele, intestinais, obesidade e problemas cardíacos.
Costa afirma que, devido ao ritmo circadiano – forma como é designado o período no qual se baseia todo o ciclo biológico do corpo humano –, o organismo não consegue manter uma regularidade e todos os órgãos do corpo humano começam a apresentar problemas.
“Isso tudo vai resultar em um comprometimento da qualidade de vida das pessoas e que pode desencadear um quadro de hipertensão arterial. A pessoa pode passar a ter problemas de queda de imunidade, infeções com mais freqüência e distúrbios emocionais”, explica a médica.
Estudo divulgado pela Unidade do Sonho do Instituto Dexeus de Barcelona, juntamente ao Serviço de Neurofisiologia do Hospital da Paz de Madri, ambos na Espanha, confirma a afirmação da especialista. De acordo com a pesquisa, pessoas que têm jornada de trabalho no período noturno têm 40% mais possibilidades de ter transtornos neuropsicológicos, digestivos e cardiovasculares.
O estudo também afirma que trabalhadores noturnos perdem cinco anos de vida para cada 15 anos de jornada de trabalho e quem trabalha à noite se divorcia três vezes mais que o restante da população.
Maria Lúcia Biem, psicóloga, concorda que os trabalhadores noturnos têm mais problemas de relacionamento. De acordo com ela, os familiares de quem exerce alguma atividade noturna e que possui apenas o dia para o descanso precisam atuar como colaboradores.
Para ela, a rotina de todos na casa de quem trabalha à noite tem de ser alterada. As crianças precisam abrir mão das brincadeiras para respeitar o descanso do pai ou da mãe. A vida amorosa do casal também sofre alterações, já que tem de acontecer durante o dia e quando os filhos não estão presente. Tudo isso pode esfriar a relação entre o marido e mulher”, analisa.
Tanto Biem quanto Costa afirmam que o sono de quem trabalha durante à noite geralmente é curto e leve. “As pessoas dormem em média três horas por dia e durante esse período acordam várias vezes”, afirma a especialista em distúrbios do sono.
Costa diz que o ser humano é um “animal” diurno, ou seja, foi feito para estar acordado durante o dia e dormir durante a noite. “É como se todos estivessem programados para o trabalho diurno e descanso noturno. Os neurotransmissores do nosso cérebro começam a produzir as substâncias químicas em um determinado horário que nos põe a dormir”, conta a especialista.
A médica explica que, mesmo que uma pessoa trabalhe por um longo período durante a noite, não é possível afirmar que o organismo se acostumou, ou seja, inverteu a sua ordem natural. “Existe uma adaptação forçada. A necessidade obriga a pessoa a aceitar essa rotina, mas o organismo continua a não entender as mudanças e desregulado”, afirma Costa.
Ela afirma que o problema é maior entre as pessoas que não conseguem manter uma regularidade e que trabalham em turnos alternados. “Para que trabalha uma noite, descansa na outra e depois volta a trabalhar, o problema é maior”, afirma.
Nessa situação, de acordo com a especialista, o cérebro desse trabalhador passa a não entender qual é a hora de dormir e de acordar pois sua fisiologia se encontra alterada. Como conseqüência, o cérebro pode deixar de produzir ou diminuir as substâncias químicas responsáveis pelo sono e pelo despertar da pessoa.