Ser

Sexualidade sob reservas

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

“Tudo me é lícito, mas nem tudo convém”, disse o apóstolo Paulo há milhares de anos. Embora a frase seja antiga, ela é utilizada até hoje pelas igrejas cristãs, especialmente quando o assunto é sexo entre os casais. Ter fantasias sexuais pode ser lícito, assim como freqüentar motel, mas será que essas práticas convêm aos casais que procuram levar uma vida pautada no cristianismo?

Para o padre Milton César Carraschi, 43 anos, as pessoas são livres para fazer o que quiserem. “A igreja não proíbe nada no que se refere a sexo entre marido e mulher, ela apenas orienta”, afirma. “A intimidade depende dos casais, mas a igreja procura não incentivar as fantasias sexuais”, acrescenta. Segundo ele, a igreja não vê com bons olhos essa prática porque as fantasias têm como objetivo único e exclusivo o prazer e não a procriação.

Na opinião do pastor Levi Momesso, 33 anos, da igreja pentecostal O Brasil para Cristo, o casal tem o direito de fazer o que quiser dentro das quatro paredes. “Desde que haja concordância de ambas as partes”, pondera. Segundo ele, as fantasias ajudam a “oxigenar” as relações sexuais do casal. “Depois de dez anos de casamento, a tendência é que o relacionamento caia na mesmice”, afirma ele, que é casado há 13 anos e tem três filhos.

O pastor Samuel Biassi do Nascimento, da Primeira Igreja Batista, tem posicionamento parecido. “O casal tem de encontrar seu ponto de prazer desde que não fira o outro. Tem de haver equilíbrio. A satisfação tem de ser mútua. É uma via de mão dupla”, orienta. Segundo ele, a falta de cumplicidade entre casais é o que mais tem “matado” os casamentos.

Para o pastor Gilson Bifano, diretor e conferencista do Ministério Oikos (Ministério Cristão de Apoio à Família), todas as pessoas sexualmente ajustadas podem ter, mesmo que nunca tenham experimentado, algum tipo de fantasia sexual. “Elas estão presentes no imaginário masculino e feminino para aumentar o prazer sexual, pois induzem à excitação e em alguns casos fazem com que o ambiente sexual do casal se torne divertido”, diz ele.

No entanto, ele lembra que muitos desenvolvem fantasias sexuais que não são permitidas para um casal cristão. Por exemplo, participar de sexo grupal, que é uma fantasia sexual, não é permitido. “Deus instituiu o sexo para ser desfrutado dentro do casamento e com o cônjuge exclusivamente”, afirma.

O pastor também é da opinião de que os casais devem respeitar os limites um do outro. “Se o marido deseja fazer sexo com sua esposa sobre a mesa da sala, mas para a esposa é constrangedor, ele deve respeitar a vontade dela. Sexo no casamento deve ser associado ao prazer de ambos, expressão de carinho e não de dor e constrangimento”, argumenta.

Embora sejam, até certo ponto, saudáveis para a vida sexual do casal, as fantasias sexuais podem ser perigosas ou indicar que algo está errado. “Se para ter prazer sexual é preciso receber tapas, ser amordaçado ou chicoteado, é sinal de que algo não está bem no aspecto psicológico. Nesses casos é preciso ajuda de um profissional, de um terapeuta para ajudar o indivíduo e o casal na busca das razões desse comportamento sado-masoquista”, diz Gifano.

____________________

Ida ao motel

Freqüentar motel também é visto com uma certa reserva pelas igrejas. Tanto pastores quanto padres dizem que a atitude pode não ser um bom exemplo para as pessoas que não freqüentam a igreja, o que dificultaria o trabalho de evangelização.

“As pessoas são livres para ir aonde quiserem, mas elas precisam saber que cada decisão errada tem seu preço”, diz o padre Milton César Carraschi, da Paróquia São José. Ele sugere que, ao invés de gastar com motel, os casais devam usar o dinheiro para caridade. “Igreja e motel são ambientes que não se compactuam”, afirma ele.

Na opinião do pastor Samuel Biassi do Nascimento, a presença de um casal membro da igreja em um motel pode dar uma conotação equivocada para outras pessoas. “Pode acontecer de uma pessoa ver apenas o homem entrando no motel e não conseguir identificar a mulher que está do lado dele. Isso pode dar margens a pensamentos e comentários falsos que arranham um casamento”, avalia. “Essa é uma questão muito particular do casal. É uma opção que eles fazem. Será que isso vai edificar a vida deles?”, questiona o pastor.

Para Levi Momesso, pastor da igreja O Brasil para Cristo, a ida ao motel não pode ser uma prática constante, mas os casais têm todo direito de procurar alternativas para poder namorar de uma forma mais íntima. Ele lembra que existem casais que recorrem ao motel porque as relações sexuais em casa tornam-se quase impraticáveis por causa da presença dos filhos. “Eles perdem a liberdade”, comenta. De acordo com ele, se o casal vive um casamento sexualmente saudável, a possibilidade de ocorrer uma traição é bastante remota.

____________________

Depoimento

O vendedor Carlos (nome fictício), 35 anos, revela que não tem costume de ir ao motel com a esposa, mas já foi algumas vezes. Na avaliação dele, não há nada de errado em fazer isso. “Errado seria ir ao motel com outra mulher ou a mulher com outro homem, mas se os dois estão casados e querem ter uma relação em um lugar diferente, acredito que Deus não irá se zangar com isso. Não vejo mal nenhum”, diz ele, que freqüenta igreja evangélica desde a juventude.

Sobre as fantasias sexuais, o vendedor diz que isso é um assunto que deve ser discutido apenas entre o casal. “Se os dois concordarem em fazer algo diferente, acho que tem que fazer mesmo.” Questionado se realizou alguma fantasia com a esposa nos oito anos de casado, ele riu meio envergonhado e se limitou a dizer “é segredo de casal”.

Comentários

Comentários