A festa acabou? Ainda não. Mas que faltam vários ingredientes, e que o DJ já olha impaciente no relógio... Ah, disso não tenho dúvida! Dei-me ao luxo de parodiar Drummond após chegar-me aos ouvidos uma notícia um tanto quanto inusitada. Algumas provas das Olimpíadas que se aproximam correm o risco de serem canceladas ou transferidas de local. Causa? Poluição da gigantesca Pequim. E agora, Tse? A água acabou, a floresta se foi, o rio se exauriu... E agora, Tse? O PIB está uma beleza. Já passou o Brasil e cresce num ritmo de fazer inveja. Títulos, exportações a todo vapor, mercados mundiais conquistados. Mas atletas mundiais não terão recordes conquistados em provas que duram mais de 60 minutos por conta da poluição de Pequim. Peça socorro ao PIB, Tse. Talvez esse cara te ajude.
Do campo para a cidade, da bicicleta ao automóvel, do comunismo à economia de mercado, do necessário ao supérfluo. Tse segue a trilha. Segue a picada aberta pela galera daqui do ocidente. Só muda é que tem mais gente! Geração de energia, consumo crescente, dólar doente, planeta mais quente. Só muda é que tem mais gente! Rio destruído, ecossistema exaurido, ar poluído, todo mundo atingido. Muda é que o chinês é mais inibido.
Ou alguém duvida que quando Pequim emplacar quase mil carros por dia vai ter um trânsito nefasto como o de São Paulo? E os problemas de saúde causados pela inalação exacerbada de poluentes no ar? Que megalópole achou solução? O sr. PIB aqui também não ajudou... Sr. PIB tem outra prioridade: Money, money and money. O desjejum dele é real, almoço é yen, lanche é euro e jantar...energia nuclear. Por isso vive em forma. Quer sempre mais. Doa a quem doer. Não interessa quem fica para trás. Índios, bagres, quilombolas, nascentes, biodiversidade, equilíbrio ecossistêmico, cultura local, temperatura agradável, planeta saudável. Isso tudo para ele é secundário. Se der, a gente faz, né PIB?
O gelo derreteu, o semi-árido sofreu, o furacão se forteleceu, Nova Orleans padeceu. E agora, Tse? O mar subiu, a praia sumiu, o bagre não pariu, o coral reduziu... Mas Sr. PIB lá está. Olha tudo passivamente. Afinal, ele crescendo, de que serve o resto? A educação, a paz, a independência, a dignidade, o ser humano. Tudo perfumaria para tio PIB. Paciência, logo mais. Se der, a gente faz. Estou crescendo, não vê? E ainda conspiramos contra o PIB! Ele está crescendo, não vê? Inventamos audiência pública, EIA/RIMA, respeito. Porque atrapalhá-lo? Não vê que está crescendo? Matas ciliares, APPs, UCs, Reserva Legal, APAs. Quanta besteira! Respeitem o sr. PIB, por favor. Comamos moeda, respiremos commodities, urinemos ações, defequemos Blue Chips. Pratiquemos passeios ao shopping, contemplemos concreto, namoremos quietos. É isso, Tse? É isso que você quer? Carros blindados, patrimônios segurados, pobres segregados, grades até os telhados, parentes sequestrados. É isso, Tse? É isso mesmo que você quer? Perdoe-me pelas brincadeiras durante o percurso deste artigo, mas foi a forma mais palatável de exprimir o quanto é necessário ousar e quebrar esse paradigma global que supervaloriza o crescimento do Produto Interno Bruto em detrimento de tudo mais que exista no planeta Terra. Que conceito mais careta e reducionista.
Nossas nações têm muito mais a oferecer que mereça ser levado em conta do que um apanhado de números que espelham apenas a riqueza fria e mensurável. Dá um tempo, sr. PIB. Você marcha, Tse! Tse, para onde?
O autor, José Paulo Toffano é deputado federal, secretário nacional de formação do PV e presidente da comissão de meio ambiente, desenvolvimento regional sustentável e saúde do Parlamento do Mercosul