O Brasil é o primeiro País no ranking referente ao uso de cinto de segurança no banco da frente. No entanto, é o último quando o assunto é a utilização do dispositivo entre os passageiros do banco de trás. A informação é confirmada pelo cirurgião plástico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Fonseca. Segundo ele, quem transita atrás fica mais vulnerável a fraturas de face em caso de acidentes.De acordo com o publicado no site da Associação Brasileira de Educação de Trânsito (Abetran), 85% das pessoas não usam o cinto no banco de trás.
Já nos bancos da frente, a equação é praticamente inversa: 80% usam. “Quem está atrás se sente protegido, acredita que esteja longe da zona de impacto. As crianças acabam sendo as vítimas mais freqüentes”, explica o médico. Ele integra o grupo de cirurgia craniofacial do HC, que publicou na revista médica Clinics o resultado de uma pesquisa onde o risco é apontado.
Os cirurgiões plásticos constataram 323 traços de fraturas em 56 ocupantes de veículos populares que deram entrada no Pronto-Socorro do hospital. Os ocupantes do banco traseiro apresentaram traumas mais graves, seguidos dos motoristas e dos passageiros do banco dianteiro. Nenhum dos ocupantes do banco traseiro usava o cinto de segurança.
“Grande parte deles são crianças. Tanto elas, quanto os adultos, costumam ficar na posição do meio para conversar com quem está na frente. Numa batida, a pessoa voa direto. Ou ela bate com a face no painel ou pior, é ejetada do veículo e pode se quebrar muito mais. Sem cinto não dá para andar mesmo, independentemente de onde esteja sentado”, diz ele.
Diante da experiência e do resultado do estudo, Fonseca defende campanhas de conscientização dirigidas aos passageiros do banco traseiro. Sem o cinto de segurança, eles ainda aumentam a chance de morte do motorista. “Tem um dado do Japão que mostra que a mortalidade para o motorista aumenta em 50% se quem estiver atrás dele estiver sem cinto de segurança”, reitera.
De acordo com Fonseca, se um adulto com 70 quilos estiver no banco de trás sem cinto de segurança e houver uma batida a 60 quilômetros por hora, ele será atirado para frente por conta da inércia, fazendo uma grande pressão tanto sobre o banco quanto sobre o passageiro dianteiro. Neste caso, a força exercida se mede na ordem de toneladas, diz o cirurgião. “Ou seja, não tem quem segure”, diz.
Diante da situação, a equipe do HC freqüentemente tem de refazer o rosto de vítimas de desastres. A reconstrução da fratura, porém, nem sempre garante ao paciente o mesmo rosto, principalmente se a região do nariz for afetada. “A gente junta caquinho. Na região do nariz é muito difícil conseguir tudo de volta no mesmo local. Fica mal posicionado, são cirurgias difíceis para conseguir um ganho muito pequeno”, comenta.
Como são ossos frágeis, delicados, inviabilizam o uso de placa ou parafuso, diferentemente de uma mandíbula, por exemplo. Por ser forte, pinos e placas podem ajudar a colocá-la de volta no lugar.
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Conseqüências
Além de correr o risco de ter as feições alteradas, quem passa por uma reconstrução de rosto enfrenta outras dificuldades. Ficar sem comer por um período é uma delas. “Não consegue nem abrir nem fechar a boca. Após a correção da fratura, o pós-operatório é doloroso. Com o impacto, a pessoa pode ter problema com a visão, pode furar o olho ou ter outra lesões”, explica o cirurgião plástico Alexandre Fonseca.
Outro dado preocupante acusado pela pesquisa da qual ele fez parte foi o elevado número de fraturas de face em motoristas que utilizavam o cinto de segurança. Foram constatadas 5,54 fraturas por paciente, ou seja, 0,79 a menos das registradas nos motoristas que não utilizavam o cinto de segurança na hora do acidente (7,23 ossos fraturados).
Baseados nesses dados, os pesquisadores concluíram que a posição do motorista no veículo é efetivamente protegida pelo cinto de segurança no caso de ejeção do veículo, mas não impede o impacto da face contra o volante ou contra a coluna do pára-brisa, situações em que o air-bag tem grande utilidade por amortecer o impacto e reduzir o trauma.