Tribuna do Leitor

Um sonho que não quer ser acordado


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A perda traz mudanças de valores: as pessoas passam a ter menos medo de errar, entendem que têm limites e vivem melhor o presente. Quando se cria um filho damos a ele cores de todos os matizes, coloca-se nele um pouco de perfume, odores irreconhecíveis, um bloco enorme de carinho, pedaços de amor, e todos os dias encontram-se formas novas de ensiná-lo a amar.

No outro dia recomeçamos, dando-lhe mais, amor, mais carinho, corrigindo e ensinando-o a viver, e pedimos a Deus que é todo poderoso que estejamos fazendo tudo certo, e que estejamos amando nosso filho de forma adequada. Fazemos como um quadro em branco, e começamos a criar lentamente uma forma. Colocamos traços ainda indefinidos, vamos então às cores, um pouco de cada. No começo não o reconhecemos, tiramos alguns traços, reforçamos nas cores, mas lentamente vamos reconhecendo como uma figura que nos é familiar.

Uma vez perguntaram a Michelangelo como fazer uma escultura, e ele disse: “Simplesmente retiro do bloco de mármore tudo o que não é necessário”. Ou seja, a criança está ali, cabem a nós mães e pais retirar o que está a mais. Quando este fato está concretizado, quando o definimos, percebemos que ele sempre foi uma parte de nós.

Quando o perdemos prematuramente (sempre perder um filho é prematuro para uma mãe), perdemos nosso chão e temos que recomeçar. Mas é mais difícil recomeçar numa estrutura destruída do que fazer nascer do começo, e aí precisamos renascer. Renascer nas nossas esperanças, na nossa coragem, precisa abrir mão de nossa realidade, pois é mais fácil renunciar a ela do que a um sonho. Precisamos fazer a diferença entre Existo ou Resisto. Precisamos fazer a diferença no mundo e renascer na esperança de dias melhores.

Só me resta a saudade, pois você, Caio Márcio, nasceu como um sonho e viveu como uma realidade. Criou em mim uma esperança. Viveu para amar a vida e se fazer amado. Deu a mim seu coração, sua confiança e seu amor. Deu-me a esperança para que eu pudesse ser uma parte de mim mesma até então desconhecida. Fiz de você um sentido de vida. Criamos juntos uma história repleta de amor e de sonhos. Completamos-nos, preenchemos vazios com alegrias e esperanças, com sentimentos que só os que amam sabem seu significado. O tempo não passou, sinto como se estivesse dormindo, um sonho que não quer ser acordado, que não pode ser acordado.

Na minha alma está escondida a ternura da saudade que guardo e relembro a cada minuto da minha vida. Não determino meu tempo, apenas faço dele um tempo para mim. Esqueço-me de agradecer de ter tido você porque a saudade e a emoção são ainda maiores que a compreensão de tê-lo perdido. Sentimentos de perda significam saudades esquecidas e aquecidas no coração. Amanheço e choro de saudade dos belos momentos que tivemos, de quase vinte e quatro anos de 15 de março.

Guardo seu cheiro, seu toque e a beleza de seu sorriso inesquecível que não mais sentirei no fundo de meu ser e acredito e confio na certeza de um reencontro. Parabéns e feliz aniversário, beijinho da mamãe.

Márcia Moscardi Maddi - RG 3.178.530

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