Aos 75 anos, Tarico Yoshiura esbanja saúde, alegria, simpatia e disposição. É de dar inveja e exemplo a muitos jovens. Achá-la em casa pode ser uma tarefa tão difícil quanto vencê-la em um campo de golfe. Ela não pára. Pelo menos duas vezes por semana faz ginástica durante uma hora. Vai e volta caminhando.
Tarico esteve três vezes no Japão, acompanhada do marido Tetsuro Yoshiura (falecido). Achou o país lindo, mas não gostou nem um pouco do custo de vida altíssimo. “Eu nunca moraria lá. Acho o Brasil o melhor lugar que existe”, confessa.
Filha de pais japoneses, essa nissei, natural de Bastos, coleciona mais de 60 troféus conquistados nos campos de golfes espalhados pelo Brasil. Até hoje freqüenta o Golfe Clube de Bauru, mas dificilmente participa de competições.
Ela considera-se uma pessoa vitoriosa não apenas dentro de campo, mas também, e principalmente, fora dele. “Nas minhas orações, agradeço por tudo que tenho e tive na minha vida.”
Se tivesse que mudar alguma coisa, talvez escolheria ter estudado um pouco mais a língua japonesa e teria permanecido mais tempo na escola. “Eu queria estudar, mas fiz só quatro anos de grupo. Meu pai falava que mulher não precisava estudar, porque só ia fazer as coisas da casa”, conta ela. “Mesmo assim, não me sinto triste por isso”, afirma.
Quanto a estudar japonês, ela lembra que quando era jovem tinha de aprender a língua escondido por causa da Segunda Guerra Mundial. Na entrevista concedida ao Jornal da Cidade, Tarico narra a chegada dos pais dela ao Brasil e como a família se estabeleceu em Bastos e depois em Bauru. Durante a conversa, ela dá uma lição de valor à vida. Acompanhe a entrevista a seguir.
Jornal da Cidade - Quando os pais da senhora vieram para o Brasil?
Tarico Yoshiura - Eles vieram em 1929. Além do meu pai (Minoro Tsuzuki) e da minha mãe (Sugao), veio também minha irmã mais velha (Satsuico), que na época tinha 6 anos. Quando eles chegaram, minha mãe estava grávida da minha outra irmã (Mioco), que hoje tem 78 anos. Eles chegaram em dezembro de 1929 e em maio do ano seguinte minha irmã nasceu. Três anos mais tarde, eu nasci.
JC - A senhora nasceu onde?
Tarico - Eu nasci em Bastos. Quando meus pais chegaram, eles desembarcaram no Porto de Santos e de lá foram direto para Bastos, onde ficaram por bastante tempo até mudarem para Bauru.
JC - Seus pais vieram fazer o que no Brasil?
Tarico - Vieram para trabalhar na lavoura. Eles compraram dez alqueires de sítio e começaram a plantar. No início, foi um sofrimento. Eles mesmos tiveram de abrir um poço para conseguir água. Minha irmã, com 6 anos, tinha de carregar a mais nova o dia inteiro para minha mãe poder trabalhar. Ela gostava muito de um doce japonês, o yookan. Então, minha mãe falava que se ela cuidasse da irmã ganharia o doce. E ela cuidava o dia inteiro. Só na hora de mamar que minha mãe pegava a criança.
JC - Então, suas irmãs iam para a lavoura junto com os pais?
Tarico - Iam. Minha mãe contava que nunca viu o sol nascer em casa. Eles saíam de casa cedinho, levando comida para comer na roça. Eles tinham plantação de café, e quando o pé estava grande, minhas irmãs ficavam na sombra. Elas iam seguindo minha mãe por todas as ruas do cafezal.
JC - A família sempre trabalhou com café?
Tarico - Quando eles começaram a plantar, era café. Depois mudaram para o algodão. Quando eu ia casar, estava criando bicho-de-seda. Minha mãe estava contente, porque com o dinheiro do bicho-da-seda, ela falava que podia casar todos os filhos dela.
JC - A senhora permaneceu em Bastos até quando?
Tarico - Até pouco depois de casar. Meus pais continuaram lá e eu vim para cá. Isso foi há 51 anos. Depois veio todo mundo para cá. Só os pais e irmãs do meu marido ficaram em Bastos.
JC - O marido Tetsuro Yoshiura era de onde e como a senhora o conheceu?
Tarico - De Bastos. Eu o conheci porque a minha irmã, a Mioco, tinha casado com um irmão dele. Japonês faz muito isso. Naquele tempo, a gente nem namorava. Eram os pais que arrumavam o casamento. E eu fui muito feliz.
JC - Como foi o início de vocês em Bauru?
Tarico - A Mioco e o marido dela também vieram com a gente. Nós arrendamos um pedaço de terra por um tempo. Plantamos melancia, graças a Deus a colheita foi boa. Com o dinheiro, deu para comprar uma fazenda. Quando estava grávida do segundo filho, em 1957, eu mudei para essa fazenda, perto do rio Batalha e de onde é o campo de golfe. Nós plantamos melancia, depois trocamos por poncã, mexerica. Quando surgiu o abacaxi sem espinho, começamos a plantar também. Até hoje, meus filhos plantam abacaxi.
JC - Qual é a relação de vocês com o Golfe Clube de Bauru?
Tarico - Foi meu cunhado (irmão mais novo de Tetsuro e solteiro) quem fundou o clube. Por isso, que eu jogo golfe até hoje. Meu cunhado ensinou a gente a jogar, todo mundo gostou e hoje a família inteira sabe.
JC - E por que decidiram construir um campo de golfe?
Tarico - Foi mais para reunir os amigos. Vinham pessoas de Duartina, de Piratininga. Tinha uma firma japonesa, então todos os japoneses que trabalhavam nela sabiam jogar e iam para lá. Depois, tivemos de dividir a fazenda porque meu cunhado morreu e logo depois meu marido também morreu.
JC - Do que ele morreu?
Tarico - Morreu trabalhando. Ele estava na fazenda dirigindo o trator, quando caiu morto. Isso foi no dia 30 de janeiro de 1995. Meu marido tinha 69 anos.
JC - Esses troféus todos que a senhora tem em casa foram conquistados em torneios de golfe?
Tarico - Foram. Eu adoro jogar golfe. É um esporte que não dá para parar. Até hoje eu jogo. Mas não participo mais de torneios em outras cidades. Meus filhos e minhas noras estão sempre participando de torneios fora de Bauru. Eu participo só quando é na cidade.
JC - A senhora lembra qual foi o primeiro troféu que ganhou?
Tarico - Lembro. Foi em Bastos, em 1972 ou 73. A gente jogava em um campo provisório, com apenas seis buracos. Depois inauguraram um campo bonito, de nove buracos. Naquele tempo, nós éramos loucos para jogar golfe. Qualquer tempo que sobrava, nós íamos para o Golfe Clube. Quando meu marido estava vivo, nós íamos pelo menos duas vezes por semana para Bastos para jogar. É muito gostoso. Enquanto eu estiver viva, vou continuar jogando.
JC - O que mais a senhora gosta de fazer?
Tarico - Eu gosto muito de freqüentar a Seicho-No-Ie. Gosto também de fazer ginástica. Faço pelo menos duas vezes por semana. Levou 20 minutos para chegar, vou andando, faço uma hora de ginástica, e volto para casa andando, são mais 20 minutos. Quando eu converso com o médico, ele fala que está ótimo e que é para eu continuar. É por isso que eu tenho saúde.
JC - O segredo para tanta disposição é estar sempre fazendo alguma coisa?
Tarico - Acho que sim, porque eu gosto de fazer de tudo. Eu não tenho empregada, não tenho faxineira, faço tudo sozinha, estou sempre andando, entrego a revista “Fonte de Luz” (da Seicho-No-Ie), saio para vender, saio para cobrar, sempre estou fazendo alguma coisa. Não sobra tempo para eu treinar golfe. Eu jogo sem treinar. Quando pego o taco, ele está do jeito que eu deixei da última vez que joguei.
JC - E a senhora vai sozinha para o Golfe Clube ou alguém a leva até lá?
Tarico - Minha filha (Marina) não gosta que eu dirija na rodovia Marechal Rondon. Mas o meu filho (Milton) fala para eu ir sozinha. Ele fala que a estrada está boa depois que duplicou. Mas eu não pego carro porque depois ninguém vai mais me levar. Quero ficar dependendo dos meus filhos. Eu acho perigoso. Meu carro é muito baixo. Tem que tomar cuidado quando passa nos obstáculos para não bater embaixo.
JC - O que a senhora faz quando está descansando?
Tarico - Eu gosto de assistir televisão, principalmente notícia. Eu acordo cedo. Às 6h15, eu já ligo a TV. Eu assistia muito um canal do Japão que passa na TV por assinatura, mas por causa desse monte de coisa que eu faço, eu só tinha tempo de assistir à noite. Mas à noite eu estava cansada e decidi cancelar a assinatura. Mas antes eu gravei umas 30 fitas. Quando eu quero assistir um programa sobre golfe, eu pego a fita, assisto, eu treino, depois vou jogar.
JC - Do jeito que a senhora está falando, deve ser difícil achá-la em casa.
Tarico - Difícil. Quando as pessoas me acham em casa, elas falam “que milagre você estar em casa”. Elas falam desse jeito.
JC - É fácil notar que a senhora é uma pessoa muito alegre. De onde vem tanta alegria?
Tarico - É verdade. Eu estou tão contente com a minha vida. Enquanto meu marido era vivo, nós nos divertimos muito. Um não andava sem o outro. Fomos três vezes para o Japão a passeio: em 1970, 85 e 93. Nós fazíamos tanta coisa que o tempo passava voando. Nós aproveitamos bem a vida.
JC - E o que a senhora achou do Japão?
Tarico - Ah, o Japão é muito bonito, mas para passear. Eu nunca moraria lá. Acho o Brasil o melhor lugar que existe. No Japão, é tudo muito caro. Eu lembro que eu fui ver um vestido no Japão e ele era dez vezes mais caro do que um igual no Brasil. Eu recebi muitos japoneses na minha casa. E eles adoravam vir para o Brasil. Eles compravam muita coisa, porque achavam tudo muito barato. Meu marido sempre falava que o que eles ganhavam em um dia no Japão, o brasileiro levava um mês para ganhar aqui.
JC - Os filhos permanecem em Bauru ou estão morando fora?
Tarico - Estão todos aqui. Minha família está toda aqui. Tenho três filhos e cada um tem um filho.
JC - Vocês se reúnem com freqüência?
Tarico - Sim. Eu mantenho o costume dos meus pais. Principalmente, na passagem de ano, todo mundo se reúne em casa. No dia 31 à noite, eu faço o soba, que é o macarrão preto, da sorte. No dia 1, a gente come o moti (bolinho feito de um tipo de arroz usado na culinária japonesa). Tem também comida chinesa, italiana, é uma mistura gostosa, coisa do Brasil.
JC - Tem alguma coisa que aborrece a senhora?
Tarico - Eu sempre estou contente. Eu só tenho a agradecer pelos meus filhos, boas noras, meu genro é bom, netos também. Agradeço pelos meus antepassados, pelo meu apartamento. Parece que quanto mais a gente agradece, mais aparecem coisas boas. Estou sempre bem. Não tenho nenhum lugar no corpo que dói. Eu sou uma felizarda. Não sei o que é anestesia. Nunca fui operada. Tudo no meu corpo é original (risos). Até quando não sei. Só meus dentes não são originais. E uma vez operei da catarata, mas demorou 15 minutos e já vim embora. Graças a Deus, não sei mais nem o que é dor de cabeça.
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Perfil
Nome: Tarico Yoshiura
Idade: 75 anos
Local de nascimento: Bastos
Marido: Tetsuro Yoshiura (falecido)
Filhos: Armando, Milton e Marina
Netos: Vinícius, Armando Henrique e Fabiana
Hobby: Jogar golfe
Livro de cabeceira: qualquer um de Seicho-No-Ie
Filme preferido: “Haru e Natsu” (2005)
Estilo musical predileto: Todos
Para quem dá nota 10: Para o ser humano
Para quem dá nota 0: Para o sistema penitenciário brasileiro