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Samu/192: um trabalho sem rotina

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Um homem entra em um tanque de combustíveis para pintar o interior do recipiente. O tíner usado como solvente evapora e o profissional começa a passar mal. Em uma padaria, um funcionário fica com uma das mãos presa no rolo de preparar massas. Um rapaz passa a noite toda bebendo e acaba caindo no meio da rua, inconsciente.

As pessoas citadas acima moravam em diferentes lugares de Bauru e, provavelmente, nunca se cruzaram na vida. Ainda assim, elas têm algo em comum: todas estão vivas, hoje, graças ao trabalho de uma das seis viaturas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) que se encontram em atividade no município. “Haja estômago”, penso, enquanto ouço os relatos dos funcionários. Estou na base de atendimento do serviço e dou graças a Deus por não ser obrigado a presenciar essas cenas dramáticas.

Os cerca de 20 profissionais que compõem o corpo clínico do serviço (bem mais corajosos do que eu, com certeza) costumam receber mais de 200 pedidos de socorro ao dia e são capazes de atravessar a cidade no sentido Leste-Oeste em apenas 15 minutos - sem desrespeitar o limite de velocidade imposto pelos radares e lombadas eletrônicas, senão, correm o risco de ser multados.

Criado há três anos, o Samu de Bauru é financiado por recursos da União (50%) e do município (50%). No início eram poucas viaturas em atividade, fato que ocasionou críticas por parte de pessoas que tentavam utilizar o serviço.

Em 2006, por exemplo, uma aluna da Escola Estadual (EE) João Maringoni, no Núcleo Beija-Flor, começou a ter uma crise de choro e a reclamar de dores na cabeça e no peito; em seguida, ela desmaiou. Preocupados, funcionários da instituição resolveram solicitar socorro do Samu.

Quase meia-hora havia se passado desde então, e nada da viatura chegar à escola. A situação deixou as pessoas que ali estavam descontentes, tanto que, dias depois, José Reginaldo Fortunato, professor de artes da escola, resolveu enviar uma carta ao Jornal da Cidade para reclamar do atendimento recebido pela garota.

“Aquele era outro contexto. Dias atrás, por exemplo, na região do Mary Dota, vi uma jovem colidir de moto com um carro, e a equipe do Samu chegou em menos de cinco minutos para socorrê-la. Dessa vez atendimento se mostrou satisfatório”, avalia ele.

Na época em que a aluna da EE João Maringoni demorou a ser socorrida, o município contava com apenas quatro viaturas do Samu. Hoje, além das seis mencionadas anteriormente, há outras cinco que ficam na reserva, para o caso de algum imprevisto ocorrer com aquelas que se encontram em atividade.

Luta contra o tempo

A diferença básica entre a rotina do Samu e a dos demais serviços de atendimento emergencial (um pronto-socorro, por exemplo) é que, nas ruas, as situações nunca se repetem. “É como se a gente entrasse na vida das pessoas que socorremos”, compara a enfermeira Fabiana de Souza Carvalho Mucheroni, 41 anos.

Com 11 anos de experiência no Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru, ela está há menos de cinco meses no Samu. “Para mim, essa mudança foi motivadora. Aqui o tempo conta muito e cada ocorrência é uma novidade”, diz ela.

Na última terça-feira, por exemplo, a manhã de Fabiana poderia ter sido descrita como tranqüila. Poderia... É que às 8h30, segundos antes de eu chegar à base, a UTI-móvel saía a todo vapor para atender a uma emergência registrada em um bairro próximo.

“Quando chegamos ao local, o rapaz já estava morto”, disse ela. Vida e morte são realidades com que os profissionais que atuam no serviço têm de lidar de maneira quase ininterrupta.

Na noite anterior, por exemplo, Fabiana e seus colegas atenderam o caso de uma senhora de 60 anos que estava sofrendo de uma parada cardiorrespiratória. “No caso dela, conseguimos prestar socorro a tempo e ela foi encaminhada com vida ao PSC”, diz.

Às vezes, nem mesmo o socorro imediato é capaz de salvar a vida do paciente. “Lembro-me de uma vez em que fomos chamados a uma residência na avenida Nossa Senhora de Fátima (zona sul) para ajudar um homem que apresentava quadro de dispnéia (crise de falta de ar)”, conta Carlos Gregório, 43 anos, que trabalha há três anos como motorista de viaturas.

“O rapaz era enorme (alto e pesado) e não cabia na maca. Precisamos carregá-lo nos braços. Eu me recordo de um momento em que ele se virou para mim e falou: ‘Por favor, não me deixe morrer’”, afirma Gregório. Com muito esforço, ele e o médico plantonista que o acompanhava conseguiram retirar o homem de dentro da casa. Naquele mesmo instante, uma UTI-móvel do Samu acabava de chegar ao local.

“O paciente foi entubado (recebeu oxigênio) no meio da avenida. Todo mundo que passava por ali parou para ver”, garante o motorista. Horas após receber os primeiros-socorros, porém, o rapaz acabou morrendo por complicações recorrentes da crise de dispnéia. O trabalho de Gregório teria sido em vão? “Na verdade, fiquei com a sensação de dever cumprido. Senti-me aliviado por tê-lo atendido a tempo”, acredita ele, que já viu três mulheres darem à luz dentro de sua viatura.

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