Regional

Modificação do meio ambiente pode favorecer os acidentes com raias

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Botucatu – Com a intervenção no meio ambiente, implicando em profundas mudanças nos cursos d’água, as raias passaram a habitar lugares em que não eram comuns e a novidade pode criar uma interação indesejada às populações ribeirinhas e turistas. O biólogo Domingos Garrone Neto, da Unesp de Botucatu (100 quilômetros de Bauru), garante que as raias só atacam quando pisoteadas. “Elas não são agressivas, só se defendem. Em geral, vivem associadas aos fundos dos rios ou mares, se enterram na areia ou no lodo. Quando a pessoa pisa nelas, elas desferem a ferroada”, explica.

O ferrão das raias de água doce é rígido como uma ponta de lança. A ferroada geralmente não mata, porém levará a vítima à morte se o ferrão atingir alguma artéria. “Mas deixa a vítima incapacitada para o trabalho por muito tempo, especialmente porque é um acidente que acomete membros inferiores, tornozelo e pé, principalmente”, salienta.

Neto ressalta que a vítima fica com uma úlcera provocada pelo veneno que além da ação da dor tem ação necrosante. “O ferrão destrói o tecido. A cicatrização é difícil, e como o ribeirinho tende a utilizar borra de café sobre o local, o que não é recomendável, propicia o aparecimento de infecções secundárias.”

O pesquisador ensina que, para amenizar a dor da ferroada de uma raia, deve-se usar água quente. “Percebemos que as toxinas das raias tanto de água doce quanto salgada são sensíveis ao calor. A ação da dor pode ser minimizada com água quente, não escaldante, sobre o local afetado. O calor neutraliza as toxinas, que provocam a dor. A vítima pode sentir ainda sudorese, ânsia de vômito e taquicardia”, relata.

Segundo o pesquisador, sabe-se pouco sobre o veneno. “Não tem soro, antídoto.”

Portanto, para evitar acidentes, antes de entrar no rio, arraste o pé. “Ou utilize uma vara de pescar, remo ou pedaço de pau para tatear o fundo para espantar eventuais raias que estejam por ali. Normalmente, quando o peixe é tocado levemente tende a ir embora. São bichos que confiam muito na camuflagem.”

Os predadores das raias são algumas espécies de jacarés, grandes bagres, como pintados e jaús, raros na região do Alto Rio Paraná. Elas são consumidas pelos predadores quando ainda são de porte pequeno.

Carne pode ser consumida

Ao contrário do que se pensa, carne de raia é boa para consumo humano. “Por falta de conhecimento, popularmente se diz que a mulher no período menstrual não deve consumir a carne, mas isso é um mito. Assim como dizem que a carne não deve ser consumida porque tem veneno.”

Por conta desses mitos, os pescadores acostumaram a amputar a calda. “É na calda que o macho tem seu órgão sexual. A calda funciona como leme e é onde está o ferrão. Essa é a pesca negativa.”

As raias não menstruam, mas dão a luz a filhotes já formados. “Essa história surgiu porque se a fêmea prenha for capturada, ela aborta ou dá a luz dentro da embarcação. Nessa hora, ela expele um tipo de placenta (placentinha).”

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Onde são encontradas

Itaipu foi aonde tudo começou, com a inundação das Sete Quedas de Guaíra. No Baixo Paranapanema, que inclui os reservatórios de Rosana e Capivara. No reservatório de Taquaruçu suspeita-se que as raias já estejam colonizando.

Baixo Tietê, na região do município Itapura, onde o Tietê deságua no Paraná, já há confirmação de ocorrências os animais. Em 2005, Domingos conta que fez, junto com o professor Vidal Haddad Jr., a primeira captura oficial de raia no Tietê.

Em Castilho, Ilha Solteira, Três Lagoas e todos os afluentes: o Aguapeí, Panorama, Paulicéia, Presidente Epitácio, região da zona Oeste do Estado de São Paulo, divisa com o Mato Grosso do Sul já têm raias em seus rios.

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