Cultura

Sobre mundos: Depois daquele baile

Por Padre Beto* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Dóris é uma viúva de bem com a vida, que mora em Belo Horizonte e oferece em sua própria casa refeições para um grupo de idosos. Entre os seus clientes mais assíduos estão Freitas e Otávio, dois amigos que têm em torno de 60 anos e que disputam o coração da viúva. O divertido jogo entre os dois torna-se mais instigante quando Freitas propõe uma aposta a Otávio: quem ganhar terá um mês para conquistar Dóris e, se perder, abrirá o caminho para o outro.

O que parece ser uma relação quase infantil e adolescente se mostra, no transcorrer da história, uma sensível e profunda relação de amizade. No filme de Roberto Bomtempo “Depois Daquele Baile”, encontramos pessoas que atingiram a velhice não como um momento de decadência de suas vidas, mas a idade que lhes permite ser e viver com respeito, liberdade, originalidade. A história nos mostra que maturidade não significa deixar de viver, mas sim perder a insensatez concentrando-se no que há de essencial na vida.

O ser humano sempre está entre dois opostos: a insensatez e a maturidade. Com o tempo, e dependendo da forma como vivencia suas experiências, o ser humano pode deixar de ser insensato para atingir a maturidade. Nem sempre isso é regra, mas a velhice normalmente é o estágio no qual o ser humano pode viver este estado de espírito chamado de maturidade. Para alcançá-la de forma consciente, é necessário compreendermos o seu oposto, a insensatez.

O insensato é aquele que está à mercê de todos os ventos, aquele que incorpora com facilidade valores, costumes, modismos que o mundo exterior lhe pode oferecer. Sua aceitação é tão acrítica que, depois que estes conteúdos culturais entraram em sua vida, o insensato não é capaz de fazer a separação entre as influências que vieram de fora e a sua própria subjetividade, ou seja, suas próprias opiniões, vontades e seus próprios valores. Por isso, o insensato muda continuamente de opinião. Ele não é somente acrítico frente ao seu universo exterior, mas também se encontra sempre disperso no tempo.

O insensato é alguém que de nada se lembra, que deixa a vida correr, que não tenta reconduzi-la a uma unidade pela rememorização do que merece ser memorizado. Ao mesmo tempo em que o insensato não possui memória, ele também não dirige sua atenção, seu querer, em direção a uma meta precisa e bem determinada. Por isso, no insensato, ocorre uma perpétua mudança de modo de vida sem a finalização de praticamente nada.

Justamente a abertura acrítica para o mundo exterior e a dispersão no tempo fazem com que o indivíduo insensato seja incapaz de atingir a maturidade.

Por sua vez, maturidade significa ter uma vontade livre. Querer livremente é querer sem qualquer determinação de influências externas ou inclinações internas. Por isso, a maturidade consiste em ser coerente. O insensato quer várias coisas ao mesmo tempo, coisas divergentes e, muitas vezes, contraditórias. Ele deseja algo e, ao mesmo tempo, o lastima. Assim, instigado pela propaganda, o insensato quer adquirir o “seu desejo de consumo” que não pode pagar agora, depois lastima pelas longas prestações que lhe deixa endividado.

O insensato é aquele que inveja e quer o sucesso do outro, mas não está disposto a trabalhar para alcançar o seu próprio. Tornar-se maduro significa aprender que o único objeto que se pode querer livremente, sem ter que levar em conta as determinações exteriores é um só: o “eu”. O nosso próprio eu é a única propriedade possível e absoluta. O insensato é aquele que ainda não descobriu esta verdade. Ele presta demasiadamente atenção ao que os outros pensam, pois o seu eu é pobre e pouco lapidado.

Por isso, o insensato não se tolera e precisa fugir de si mesmo através do consumo, dos prazeres exteriores, da diversão. Para superar a insensatez é preciso fazer tender a vida o mais rapidamente possível para seu objetivo, que é a completude de si, ou seja, o amadurecimento. “Apressemo-nos para ser velho”, diz Sêneca. Justamente na velhice, o ser humano atinge uma espécie de liberdade especial própria do amadurecimento. A liberdade de não precisar provar nada a ninguém, mas, ao mesmo tempo, a liberdade somada à sensibilidade e à responsabilidade.

Na velhice, o ser humano pode vivenciar a liberdade de se dar ao direito e exigir os seus direitos. Não somente os direitos garantidos pela lei, mas o direito de ser e se expressar livremente. Aqui está a grande chance de uma mudança de mentalidade. Se os mais velhos viverem como seres humanos solidários e sensíveis, livres e respeitosos, estarão oferecendo às novas gerações modelos de comportamento que podem ser pensados e analisados quebrando paradigmas e humanizando o nosso universo.

Por incrível que pareça, os mais velhos, que deveriam ser conservadores e tradicionalistas, possuem, com a maturidade da velhice, a chance de mostrarem aos jovens o que é realmente ser avangardista e revolucionário.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.

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