Em resposta a insistentes estímulos do Banco Central, uma fulminante ação de marqueting tomou conta da imprensa esta semana, turbinada pelo sistema financeiro, com o propósito de convencer a sociedade que a salvação da economia brasileira depende da elevação da taxa de juro. A primeira questão que nos ocorre é que é preciso caracterizar o terrível mal que ameaça o Brasil e logo somos esclarecidos que se trata de um fenômeno sinistro chamado de “excesso de demanda”. Também sofre com o apelido de “demanda superaquecida” que não encontraria correspondência no aumento da oferta de bens e serviços, produzindo um “descasamento” que na visão do Banco Central acabaria gerando pressões inflacionárias indesejáveis...
O que me parece desejável é que, antes de se adotar qualquer medida para desaquecer a demanda é preciso saber primeiro se há excesso de demanda... e onde ele pode produzir desarranjo, já que existe o caminho da importação. Na minha visão particular, a única coisa que sabemos que há em excesso no Brasil nesse momento é o mosquito da dengue, isto sim um negócio intolerável.
Não se justifica o aceno do Banco Central que provocou a enorme “comichão” no mercado financeiro e desencadeou a ofensiva de marqueting na imprensa cristalizando a expectativa de elevação da taxa Selic já na reunião do Copom marcada para os dias 14 e 15 deste mês. A alta dos juros agora, de forma precipitada, beira à insensatez, porque não está demonstrado que exista o superaquecimento de demanda que exija uma ação imediata. De outra parte, o cenário externo não está definido de modo a produzir uma avaliação mais ou menos segura dos efeitos da crise bancária americana sobre as finanças mundiais. Não sabemos nada ainda sobre se o cenário vai piorar e até onde, se os preços das nossas commodities vão refluir, se a recessão será forte nos Estados Unidos e de que forma vai afetar a Europa, a China, os demais países asiáticos e outros emergentes. Dependendo de como evoluam os fatos, talvez não precisemos mexer em nada.
O Brasil está caminhando bem, com o PIB crescendo à taxa superior a 5%, os níveis de emprego em expansão e com a inflação bem ancorada em torno de 4,5% ,o núcleo da meta. Não tem porque se precipitar. Para que se deixar levar por essa excitação especulativa dos “papeleiros” que, na contramão da economia real, exigem “medidas enérgicas” de contenção do consumo... como ação preventiva diante da escalada das expectativas da inflação de 4,5% para 4,6%!
Na falta de argumento sólido para demonstrar a tese, os habituais “analistas” do mercado financeiro recorreram à arqueologia. Desenterraram a Nairu e dela se valem para assustar as criancinhas, apontando para o enorme risco que representa, para a inflação, a queda da taxa de desemprego para menos de 8,16% da população economicamente ativa, como está ameaçando: segundo seus cálculos infalíveis (provavelmente soprados pelo Espírito Santo) se o desemprego cair abaixo de 7,58% (observem a precisão...), ninguém conseguirá evitar o disparo da inflação!
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br