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Uma profissão que a escola não ensina

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Não se aprende a ser hacker nos bancos escolares. Para atingir o nível de conhecimento desses profissionais, é preciso muita curiosidade e noites em claro.

“Não adianta ter formação acadêmica, mestrado, doutorado. Esse conteúdo não é ensinado nos bancos escolares”, diz o advogado José Antonio Milagre, que procura identificar os hackers e indicá-los às empresas.

O hacker Rodrigo Rubira Branco, 23 anos, conta que na época em que fazia o curso de informática no Colégio Técnico Industrial (CTI) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, ele dormia uma noite sim e outra não. Tudo para ficar na frente de um computador tentando entender e achar falhas em sistemas alheios.

“Eu estudava de manhã e à tarde. Quando chegava em casa, ia direto para o computador e passava a noite toda procurando falhas em softwares. Desligava o computador no outro dia de manhã e ia para a escola. Na noite seguinte, eu dormia e na outra eu ficava acordado”, relata. “Com isso, descobri que o ser humano dorme mais do que precisa”, brinca Rodrigo. Segundo ele, a alimentação equilibrada e a prática de esportes o ajudavam a enfrentar as noites em claro sem maiores problemas.

Filipe Balestra, 24 anos, não passava a noite toda acordado, mas ia dormir por volta das 2h todas as noites e acordava às 6h para ir a escola. Ele morava em Agudos e estudava em Bauru.

Eles contam que eram nessas horas que passavam em frente ao computador de casa que aprendiam a ser hackers. Eles entravam em contato, por meio da Internet, com grupos de pessoas que tinham o mesmo propósito e trocavam informações. E assim iam se aprimorando na arte de encontrar falhas e propor soluções no sistema de segurança ou em programas.

Questionados se nunca se sentiram tentados em usar todo conhecimento que adquiriram durante anos para conseguir dinheiro fácil fraudando contas bancárias, eles disseram que essa é uma questão de princípio. “Depende muito da índole da pessoa. É possível ganhar muito dinheiro fazendo a coisa certa, ou seja, trabalhando de forma digna e correta. Nunca me senti tentado a cometer crimes pela Internet”, afirma Rodrigo.

Para o professor Wilson Yonesawa, do Departamento de Computação da Unesp de Bauru, o termo hacker está ligado à idéia de uma pessoa com habilidades especiais em computação, que consegue ampliar a função do computador além daquilo que foi originalmente projetado. “Desta forma, a palavra hacker rotulava alguém ‘bom’ ou do ‘bem’ muito mais do que alguém do ‘mal’ ou com intenções ruins. Esse é o aspecto, digamos, positivo da expressão ‘ser um hacker’”, diz ele.

Com as tais habilidades especiais, os hackers poderiam, por exemplo, estudar o código do programa, como o navegador Mozilla Firefox, e descobrir uma falha que permite que um código malicioso seja embutido em uma foto digital.

Quando esta foto é visualizada no navegador, o código embutido “entra” no computador do usuário e, a partir daí, abre uma brecha no sistema possibilitando uma possível invasão não autorizada. “Um hacker poderia demostrar isso e passar a informação para que os programadores possam corrigir o programa do navegador”, exemplifica.

“Perceba que isso é uma faca de dois gumes. Se alguém descobre uma falha dessas, ele pode desejar explorar tal falha, em vez que contar para todos sobre ela. Neste ponto, o serviço desse hacker passa a ser algo mais para o mal do que para o bem”, pondera.

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