Um dos mais experientes árbitros de pólo aquático do mundo é bauruense. Décio Patelli Júnior está próximo da aposentadoria, mas antes disso, será o único árbitro brasileiro da modalidade nos Jogos Olímpicos de Pequim, em agosto. Com 40 anos dedicados ao pólo, Patelli fará em Pequim sua terceira participação em olimpíadas como árbitro. Com um gostinho especial de quem possui mais de 100 viagens internacionais no currículo, a China é um dos poucos países que ainda não conhece.
Recém-chegado da Romênia, onde comandou jogos do Pré-Olímpico de pólo aquático, Patelli falou ao Jornal da Cidade e revelou que esta deve ser sua última Olimpíada como árbitro. Apesar da proximidade da aposentadoria, Patelli, uma das maiores autoridades do pólo no Brasil, afirma que considera este o melhor momento de sua carreira. Confira a seguir a conversa com o árbitro que representará Bauru em Pequim.
Jornal da Cidade – Você foi atleta de pólo aquático na juventude e depois assumiu a função de árbitro. Como se deu essa mudança de função?
Patelli – Antes, tinha uma competição chamada JEBs (Jogos Estudantis Brasileiros). E como eu apitava os treinos aqui no BTC, me convidaram para apitar nos JEBs. Eu participei de três JEBs e me convidaram para fazer um curso na Federação Paulista de Natação. A partir daí, comecei apitar jogos do Campeonato Paulista e não parei mais. Comecei apitar com 24 anos e não tinha nem parado de jogar ainda.
JC - Você ainda nada?
Patelli – Nado, mas não é minha atividade física preferida. Eu corro, ando de bicicleta, mas enjoei um pouco de piscina. Eu comecei a nadar com 13 anos. Hoje, eu tenho 53. Quer dizer, são 40 anos ininterruptos de borda de piscina. Todos os dias. Então eu enjoei um pouco. Às vezes, brinco sim. Chuto umas bolas no gol. Afinal, o pólo aquático é minha paixão.
JC – Você sempre jogou por Bauru?
Patelli – Sempre por Bauru. Nunca joguei por outra equipe. No meu time tinha Sapé, Biginha, Mortari, Nando... Era uma outra realidade de pólo aquático. Hoje a regra mudou muito. Eu posso te assegurar que o pólo aquático é a modalidade olímpica que mais evoluiu em termos de regulamento, condicionamento físico e tecnologia.
JC - Você ainda ocupa algum cargo na Federação Aquática Paulista (FAP)?
Patelli – Até o ano passado eu era diretor geral de pólo aquático, cargo que ocupei durante dez anos. Mas houve uma pressão política para que eu deixasse o cargo. No momento, eu quero descansar um pouco da parte de dirigente. Eu tenho mais dois anos de arbitragem internacional. No Brasil, eu posso apitar mais, mas eu quero parar daqui a dois anos e, aí sim, me dedicar à parte de dirigente.
JC – Quais suas intenções como dirigente?
Patelli – Num primeiro momento, eu quero participar da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), no Rio. Quero ter um cargo na parte técnica de arbitragem para desenvolvermos a arbitragem na CBDA. Mas, no futuro, eu quero ter um cargo alto diretivo na FAP. Se tiver eleição, quero concorrer. Quero participar do comitê técnico da Fina – Federação Internacional de Natação. O comitê técnico é aquele que rege e moderniza o pólo aquático. Esses são meus objetivos.
JC - Dá para sobreviver como árbitro?
Patelli – Não dá. No Brasil, não temos competições que pagam bem. Internacionalmente sim, ganhamos bem. É um outro nível.
JC - Quantos árbitros (de pólo aquático) são escalados para uma olimpíada? Você tem conhecimento de quantos brasileiros, além de você, foram convocados?
Patelli – Somos 26 árbitros para apitar jogos masculino e feminino. Divididos da seguinte maneira: cada país classificado para a olimpíada tem a obrigação de apresentar um árbitro. Então, são 12 árbitros do masculino e, coincidentemente, só dois países, Holanda e Rússia, vão participar só do feminino e estão fora do masculino. Os demais países classificados vão participar do masculino e do feminino. Então são 12 árbitros de cada país, mais dois, um da Holanda e um da Rússia. Depois são convocados árbitros neutros por continente. E eu sou o único árbitro neutro das Américas, já que Canadá e Estados Unidos se classificaram para as Olimpíadas.
JC - Você já participou de quantas Olimpíadas?
Patelli – Estou indo para minha terceira Olimpíada. Apitei Barcelona, em 1992, e Athenas, em 2004. Tenho também 14 Campeonatos Mundiais de Esportes Aquáticos. Nos Mundiais, apitei duas finais. Canadá x EUA e depois EUA x Rússia. E apitei duas finais de Liga Mundial. Eu posso dizer para você que hoje estou no auge da minha carreira.
JC - Podemos dizer que árbitro é como o vinho: melhora com o tempo? Patelli – Com certeza. Eu apitei na semana retrasada na Romênia uma semifinal do Pré-Olímpico, Alemanha x Canadá. E apitei o jogo mais importante da minha vida Romênia e Rússia, dentro da Romênia. E eu posso dizer que esse foi um dos jogos mais difíceis da minha vida. Um jogo desses dá muita experiência. Te prepara muito.
JC - Já conhece a China?
Patelli – Ainda não conheço. Eu já tive a oportunidade de estar nos cinco continentes. Mas na China será a minha primeira vez.
JC - O pólo aquático é característico pela malandragem dentro da piscina. Nos jogos, há uma guerra invisível sob a água. O árbitro consegue ver quando um atleta é agredido por baixo d’água?
Patelli – Não. Não consegue ver. Mas como eu joguei e já tenho muita experiência como árbitro, você começa a prestar atenção na ação ou na reação do jogador. Tem jogadas que ficam muito claras quando o cara vai agredir ou ser agredido. A água atrapalha, mas também ajuda muito porque o ser humano dentro da água tem os movimentos mais lentos.
JC – Mas o jogador também pode se aproveitar disso?
Patelli – Sim. Mas é como toda modalidade esportiva. Aí que eu falo que o jogo de pólo aquático é muito desgastante para o árbitro. Sempre temos que ficar atentos. Temos que antever o que o jogador vai fazer e apitar uma falta para não deixar que o jogo vire pancadaria. Porque você sabe que para “riscar um fósforo” num jogo de pólo aquático é fácil. E, graças à Deus, nos últimos quatro anos, nos jogos que eu tenho apitado, não tem acontecido brigas.
JC – Quando acontece uma briga em um jogo é como se fosse uma derrota para o árbitro?
Patelli – Sim. Por várias razões. Primeiro que o árbitro não teve controle durante o jogo para evitar de chegar onde chegou. Ele tem meios para evitar que isso aconteça. Acho que a culpa é do árbitro. Você tem jogadores problemáticos. Jogadores de pólo aquático costumam testar o árbitro. Então, se você começar rígido, você evita problemas no decorrer da partida.
JC - O nível técnico do pólo aquático brasileiro é muito inferior ao de seleções européias. Na sua opinião, o que precisa ser feito para que o pólo aquático brasileiro melhore tecnicamente?
Patelli – Nós jogamos com uma seleção muito nova lá na Romênia e eu acho que ela não desapontou. Ficou na oitava ou nona colocação se não me engano. Eu achei que foi uma classificação razoável em função da qualidade das outras equipes, visto que nesse pré-olímpico jogaram muitas forças como a antiga União Soviética, que pela primeira vez não se classificou. E a Romênia, equipe tradicional, que fez o Pré-Olímpico em casa e não se classificou. Os classificados foram Alemanha, Itália, Grécia e o Canadá. O Brasil ganhou do Canadá no Pan-Americano. Então, tem que ser feito um planejamento para Seleções. As Seleções têm que ser praticamente permanentes, ter os mesmos jogadores. É preciso disponibilizar um certo dinheiro para que o jogador possa se dedicar em maior tempo à Seleção. E em terceiro lugar, participar pelo menos de uns oito torneios internacionais por ano. Aí o Brasil pode chegar, como o Canadá chegou. O Canadá estava se preparando para esse Pré-Olímpico há dois anos. Trazer um técnico húngaro, sérvio ou croata e deixar esse cara uns dois ou três anos trabalhando aqui. Nós temos jogadores bons atuando na Europa. Então, nós temos potencial, depende de planejamento, dinheiro e estrutura para que se chegue a algum lugar.
JC – Você acha que o pólo aquático brasileiro é mal-administrado?
Patelli – Não digo mal-administrado. Eu digo que não tem a atenção que a CBDA dá para a natação. O erro é que se joga todas as cartas em um ou dois nadadores. Sendo que se jogasse algumas cartas na Seleção Brasileira de Pólo Aquático teríamos um retorno muito bom.
JC - Bauru tem uma tradição muito grande no pólo aquático, além de ser uma das poucas cidades de São Paulo a ter time em campeonatos. Porém, recentemente falou-se de um possível fim do pólo no BTC. Por que o pólo aquático está sempre marginalizado, já que é um esporte que trouxe grandes conquistas para o clube?
Patelli – Eu acho que hoje o Bauru Tênis Clube atravessa um grande problema político. Mas não quero entrar no mérito da questão, pois sou conselheiro do clube. O problema da popularização do pólo aquático é falta de vontade dos clubes. Nós encontramos muitas dificuldades dentro da Federação (Aquática Paulista) por conta da natação. Mas estamos realizando algumas ações para massificar o esporte. Bauru é uma das cidades escolhidas pela Fiesp para o desenvolvimento do pólo aquático, que vai envolver 54 unidades do Sesi. Hoje o Sesi de São Paulo já está filiado á Federação e disputando campeonatos. Além de Bauru, os Sesis de Araraquara, São Carlos, Piracicaba e outros já estão com o projeto em andamento. Em Bauru, é o técnico Luis Fernando Lapo que coordena a escolinha do Sesi. Estamos também desenvolvendo um curso de especialização na FMU em de São Paulo para formarmos técnicos de pólo aquático. Isso vai dar mais qualidade para o esporte.
JC – O que significa o pólo aquático em sua vida?
Patelli – Olha, eu cheguei na minha idade e se eu olhar para trás eu digo para você o seguinte: graças ao pólo aquático eu sou um cara feliz. Porque você ter sucesso profissional não é o bastante para te tornar feliz. Mas o esporte te dá alegria de viver e de lutar pelas coisas. A coisa mais importante que o pólo aquático me deu na vida é o espírito de competição. Eu não seria ninguém se eu não soubesse competir. Eu adoro um desafio graças ao esporte. Sou daqueles caras que não abandonam nada no meio do caminho. Graças ao pólo, eu sempre quero ir até o fim para ver o que vai dar. Se eu não tivesse o esporte na minha vida eu não teria chegado onde cheguei. Tenho mais de 100 viagens internacionais graças ao pólo. Conheço gente no mundo inteiro. O pólo aquático é parte da minha vida e sou grato a ele pelo que sou hoje.