Regional

Pedreiro mora no túmulo da família

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Jaú - O jazigo da família Alves, no Cemitério Ana Rosa de Paula, em Jaú (47 quilômetros de Bauru), tem um novo morador. O detalhe é que este não morreu. Aliás, está muito vivo. É que o pedreiro e armador Nelson Alves, 59 anos, resolveu se mudar para a “cobertura” do túmulo onde estão enterrados seus pais e uma irmã.

Conhecido como Zé Pedreiro, Alves dorme na cavidade do túmulo. Ele é enfático em dizer que decidiu morar no túmulo porque fica perto da família e não é incomodado por ninguém. “Eu gosto de viver sozinho. Na rua, tenho que me misturar aos bandidos e eu não sou um deles”, afirma

Para teorizar suas idéias, ele usa ditos populares. “Antes só do que mal acompanhado", diz para justificar sua opção de moradia. E continua: "Os mortos não incomodam ninguém. Quem tem medo de morrer, não vive. Aqui, ficamos eu e Deus e o resto já era...”, completa

Acomodado na parte mais alta do jazigo, o pedreiro assume que é alcoólatra e que não tem medo de morrer.

“Aqui estou e aqui vou ficar, isso é certo. Eu não tenho medo da morte, não tenho medo de nada. Quando eu morrer, não precisa nem de caixão. É só jogar o cimento e pronto”, comenta.

O pedreiro, dono de um par de olhos verdes, diz que já trabalhou muito. “Já estou com quase 60 anos e não vou trabalhar mais. Se tem comida, eu como. Se tem ‘goró’, eu tomo. Se não tem....”

Há dois meses no "último andar" do túmulo, Alves ganhou, recentemente, um colchão e um cobertor. Ele lembra que o último colchão perdeu na rua. “Eu tinha um, mas choveu e molhou. O lixeiro levou e eu fiquei sem”, conta.

“Eu não tenho luxo. Claro que ficou mais confortável. Assim posso dormir mais sossegado”, diz ele, agradecendo a doação do colchão. Sossego é tudo o que o pedreiro quer. “Aqui posso apreciar o trajeto da Lua, especialmente a cheia, que ilumina a minha ‘casa’. O que aparece aqui são apenas as baratas, que eu elimino rapidamente”, diz.

Para o pedreiro, a torneira do tanque do cemitério é suficiente para um bom banho. “Entro lá e tomo banho. É lá que lavo minhas roupas e estendo num varal dos coveiros”, revela.

A chuva é para ele um refresco. “A chuva é obra de Deus. Quando ela me molha, sinto que limpa tudo, me sinto livre...” Embora invoque Deus com freqüência, Alves diz que não freqüenta igrejas. “Eu não gosto de padres e muito menos de pastores. São todos mentirosos”, opina.

Pai de dois filhos, Alves diz que não sabe onde eles estão. “Acho que já faz uns cinco anos que não os vejo. Acredito que eles morem em Jaú. Minha ex-mulher nem sei onde anda”, conta, revelando que está sozinho na vida.

Questionado sobre a instituição família, Alves não poupa no discurso. “Seria bom ter uma família com mulher e filhos. Mas eu gosto de viver livre, sozinho e isso ninguém aceita”, explica.

Avesso às regras impostas pela sociedade, Zé Pedreiro ressalta que não procura os parentes. “Eles não me procuram por que eu tenho que procurar por eles?”, questiona.

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