É freqüente dizer-se que Bauru não tem liderança. De fato, não tem liderança política, alguém com representatividade e capaz de aglutinar as chamadas ‘forças vivas’ da sociedade em torno dos interesses do município. Esse alguém não existe, mas existem muitas lideranças naturais. Apenas estão cada uma dedicada ao seu campo de atuação, restringindo sua influência somente aos assuntos corporativos. Se elas se unissem e passassem a cuidar, também, dos interesses comuns do município, com certeza supririam esse vácuo e muitos dos problemas de Bauru poderiam ser resolvidos ou amenizados.
Quais são essas lideranças? Num primeiro plano estão os presidentes de entidades locais: associações, as mais diversas, e sindicatos. Num plano mais alto estão os representantes regionais dessas entidades, no nível estadual ou federal. São conselheiros ou delegados e até presidentes de federações. Por exemplo, o presidente do Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo é de Bauru, que também possui um conselheiro no Conselho Federal dos Contabilistas. Bauru possui conselheiros na Fiesp, na Federação das Associações Comerciais, na OAB, no Conselho Regional de Economia, na Associação Paulista de Medicina, na Federação da Agricultura e em outras entidades que fogem à lembrança. Imaginemos todos eles reunidos, formando uma espécie de fórum para discutir os problemas de Bauru e formular e defender propostas de solução junto aos órgãos do governo e de empresas ou instituições ligadas ao assunto! Não seria fiscalizador, que é função da Câmara e do Ministério Público. Não seria de estudos e planejamento, que é função de órgãos técnicos. Seria uma liderança coletiva, expressando a vontade da população organizada de Bauru.
Como exemplo de problema que exige a mobilização da sociedade bauruense, está aí o legado ferroviário. Uma grande área, no centro da cidade, com um pátio trançado de trilhos, que outrora eram cobertos por infindáveis vagões à espera de manobras; uma estação imponente, febricitante nos horários de embarque e desembarque de composições de três ferrovias e um conjunto de oficinas que davam emprego a milhares de ferroviários, tudo isso está abandonado, quando poderia estar servindo para atender necessidades inadiáveis da cidade.
Essa área central, de aproximadamente dezessete alqueires, que vai da Vila Dutra até Triagem, pátio da antiga Companhia Paulista (Fepasa), e que, certamente, pertencia ao município, antes das ferrovias, em vez de permitir a solução dos problemas está servindo de entrave ao crescimento da cidade. Poderia, muito bem, ser aproveitada para a revitalização da parte central, com a formação do centro cívico ou administrativo, previsto no primeiro plano diretor, elaborado por um grupo coordenado pelo arquiteto Jurandyr Bueno Filho. Do projeto apenas foram construídos o Fórum e a Delegacia Estadual da Fazenda. E, por falta de terreno disponível no centro, cogita-se de mudar o Fórum para um ponto periférico, a cinco quilômetros de distância dos cartórios e do ponto de convergência do transporte coletivo, que serve a população da periferia.
Se além do bonito e sólido edifício da Estação Central, que está sendo reivindicado, toda a área revertesse ao município, para urbanização e reunião das repartições públicas, que estão dispersas pela cidade, a quilômetros umas das outras, ganharia a população e ganharia a prefeitura, pela revalorização do centro, inclusive com aumento da arrecadação. O que representa um injustificável prejuízo para o governo e um sério problema para a cidade, talvez se transforme numa grande oportunidade. Para isso é necessário que a cidade se mobilize e não fique à espera de novo prefeito e novos vereadores, porque, provavelmente, em nada mudará. Daí a necessidade de reunir essas lideranças, que estão desarticuladas, para formar um grupo apolítico, com grande força de pressão e de “lobby” junto à Prefeitura, à Câmara Municipal, aos governos do Estado e Federal, às empresas de serviço público (CPFL, Telefonica) etc. Bauru só teria a ganhar.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru