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De gol em gol


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Se jogasse futebol, Lula seria atacante. Um atacante-artilheiro. Um atacante-fominha. Dos que jamais dão assistência, que jamais passam a bola para o companheiro de equipe, ainda que este esteja em melhor posição. Mas um atacante que faz muitos gols - a favor e contra.

Seus gols a favor têm muito a ver com o que se passa na economia. Por falta de um projeto próprio de governo, Lula manteve os fundamentos econômicos criados em gestões anteriores, em especial na de Fernando Henrique Cardoso: câmbio flutuante, metas de inflação, superávit primário, lei de responsabilidade fiscal etc. Tudo aquilo que condenava. Tudo aquilo que, somado a um cenário externo extremamente favorável, lhe permitiu colher os frutos da “herança maldita”. A popularidade da atual gestão não brotou da árvore do conhecimento petista. Ali, não há conhecimento. Há esperteza.

Seus gols contra têm tudo a ver com a falta de honestidade intelectual. Ninguém -nem Lula, claro - está condenado a defender idéias idiotas pelo resto da vida. Mudar para melhor é possível e necessário. O problema é que Lula e PT não mudam de lado por amadurecimento, mas por mera conveniência. E quem admitiu isso - por inúmeras vezes - foi o presidente-artilheiro. O que esperar de alguém que se gaba de ser uma “metamorfose ambulante”?

Lula acaba de nos dar mais um exemplo do valor real de suas “idéias”. Durante uns cerca de trinta anos, o então dublê de sindicalista e bravateiro condenou com veemência e razão o imposto sindical obrigatório, uma estrovenga criada na era Vargas para atrelar os sindicatos. E Lula acertava quando dizia que o imposto sindical obrigatório era uma espécie de incubadora de “líderes” pelegos. Por que buscar o apoio dos trabalhadores, para que atrair a oposição para dentro dos sindicatos, se o dinheiro para sua manutenção vinha de forma compulsória? Agora, Lula é a favor do imposto e destinou, conforme estudo da Fundação Getúlio Vargas, 45% dos melhores cargos de confiança aos sindicalistas. Não é preciso ter bola de cristal para saber o que está em curso.

Lula e o PT fizeram fama e carreira pondo sob suspeita a integridade moral de quem não reza pela sua cartilha. Quem era a favor - ao menos no discurso raivoso - da total transparência no gasto do dinheiro público hoje se nega a dar publicidade à fortuna que envolve as verbas destinadas ao pagamento dos cartões corporativos de uso da Presidência da República, aos recursos transferidos às ONGs e sindicatos, federações, confederações e centrais sindicais. É sintomático que, agora, o presidente use os palanques para defender enfaticamente quem fez fama, carreira e fortuna na política.

São inúmeros os gols contra de Lula – a começar pelos que objetivam intimidar a imprensa e a enfraquecer as instituições. Que sua popularidade apresente saldos tão positivos é algo que, infelizmente, confirma o que há muito se sabe: quando a economia vai relativamente bem, a indignação contra a falta de ética estica o final de semana e vai tomar um sorvete na praia.

O autor, Orlando Silveiram é jornalista - orlandosilveira@uol.com.br

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