Já dizia Vinicius de Moraes que a amizade é um sentimento mais nobre do que o amor. Quem não lembra dos amigos da infância, da adolescência? Muitos são para a vida toda. Mesmo que seja apenas no coração por causa da distância física ou da diferença de vidas. Com o passar dos anos, na maioria das vezes, o círculo de amigos fica menor, porém a afinidade entre eles aumenta muito mais.
Hoje, Dia do Amigo, é uma boa data para refletir sobre esta relação. O professor de psicologia Sandro Caramaschi, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, afirma que as amizades ficam mais específicas com o tempo. “Com 30, 40 anos, as pessoas têm menos amigos, mas as amizades são mais sólidas”. Ainda que os encontros entre os amigos sejam raros, a intimidade é maior. “Alguns amigos se encontram apenas uma vez por mês e são muito íntimos”, afirma.
Um exemplo disso é a amizade entre o professor aposentado Rodolpho Pereira Lima e Pedro Dirmar Pezzoto. Eles são amigos desde o final da década de 40, quando trabalharam juntos. E, mesmo depois de aposentados, continuam se reunindo para conversar. Para Rodolpho, não tem como viver sem amigos. “O homem é um animal social por natureza”, afirma.
O amigo, Pedro, concorda. “Não tem como dizer em palavras a importância de uma amizade como a nossa”. Caramaschi explica que manifestações de amizade são antigas. “Estudos revelam que os primatas já tinham relações de afinidade”, aponta. O professor explica que, no processo evolutivo do senso comum, a amizade se fundamentou na reciprocidade e os aproveitadores foram sendo eliminados dos círculos de amigos. “Eu não vou mais te emprestar dinheiro se você não fizer o mesmo por mim quando eu precisar”, reforça.
Felipe Álvarez sabe bem o valor de uma verdadeira amizade. Ele lembra que foi um grande amigo que o ajudou em uma situação difícil. “Quando eu estava desempregado, precisando de dinheiro, foi um amigo que me ofereceu ajuda sem nem eu pedir”. Felipe diz que tem vários colegas, mas não são todos a quem ele chama de amigo. “Amigo é o irmão fora de casa”, define.
Enquanto algumas amizades nascem do convívio duradouro, como entre colegas de trabalho, há outras que se firmam em pouco tempo. É o que testemunham as amigas do peito Rosa da Silva Cavalini, 60 anos, e Ana Conceição Ulian Gomes, que 66 anos. Parceiras para o que der e vier há uma década, a dupla conta se conheceu durante as atividades do programa “Universidade Aberta para a Terceira Idade”, mantido pela Universidade do Sagrado Coração (USC).
Independentemente de afinidades, elas revelam que a amizade nasceu assim que se conheceram. Esposas, mães e avós, as amigas fizeram do convívio dentro da universidade o trampolim para uma amizade que completaria o que já existia dentro do próprio ambiente familiar. “Fazemos muitas coisas juntas, desde ir ao cinema ou comer pizza até viagens”, conta Ana. “Ela é minha companheira para muita coisa e até saímos para jantar. De vez em quando, os maridos também vão”, comenta Rosa.
As diferenças na rotina são, justamente, para ambas, a prova de que amizade não está ligada, necessariamente, as semelhanças. “Ela (Rosa) trabalha com comércio e eu sempre fui dona de casa, criada na roça. O único serviço com renda que tive foi o de costurar para fora”, compara Ana.
Alheias aos contrastes, o principal ingrediente da amizade, para ambas, é a confiança, respondem as duas. “Quando a gente é amigo mesmo, independente do tempo em que se conhece a pessoa, a confiança é total, sem medo. Quando ocorre qualquer fato em minha vida, ela (Rosa) é minha primeira e principal confidente”, endossa Ana.
Caramaschi aponta que a amizade entre homens e mulheres é diferente. “Os homens falam mais de objetos, carros, política, mulheres enquanto as mulheres falam mais sobre sentimentos, impressões”. Para ele, a amizade feminina tende a ser mais duradoura porque tem um envolvimento emocional maior. “Enquanto os homens se reúnem com os amigos com uma finalidade, para as mulheres, o encontro já é a finalidade”.