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O espetáculo de um crime


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Todo bom roteirista sabe que uma receita infalível para agradar a grandes platéias deve conter pelo menos um desses três ingredientes: um assassinato; o drama humano, de preferência uma criança, e um mistério a ser desvendado. Imagine quando tudo isso acontece junto e, de quebra, ainda existe uma madrasta, daquelas malvadas, mesmo com cara de boazinha, que muitas vezes injustamente lateja em nosso subconsciente.

Pronto! Podemos rodar e, com alguma competência, é sucesso na certa. O público irá comover-se, indignar-se, emocionar-se. Entre a dor e a revolta ficamos sedentos para saber como foi, quem foi, por que foi? Buscando saciar nossa curiosidade diante do improvável, exercitar nossa astúcia diante do inexplicável ou compensar nosso tédio diante de uma insossa rotina, atentamente aguardamos a próxima cena. Entre a ansiedade de um rápido desfecho e o prazer em saborear o suspense, consumimos.

A indústria do entretenimento investe tempo, dinheiro e inteligência para nos deliciarmos diante de um bom thriller, que sabemos não ser real. A ficção é um parque de diversões da emoção. O sangue é de ketchup; o assassino de araque e a vítima... bem, ela irá levantar-se assim que o diretor gritar “corta!”.

Ao assistir ao caso Isabella pareço estar num desses filmes, que passa em todas telas e em todos os lugares. O semblante alegre daquela criança que nunca vimos antes, agora estampa nossas mentes como se sempre habitasse por ali. A investigação é inteligente, minuciosa, tecnológica; a cobertura é ágil, detalhista, precisa. Um show bem ao gosto de uma sociedade informatizada, bem informada e extasiada.

Confesso que sucumbi a este mórbido prazer do espetáculo até o momento em que vi, perdida num canto de jornal, a foto de um túmulo repleto de flores murchas. Caiu a ficha! Isabella não vai levantar-se, sacudir a grama grudada na roupa e, sorrindo, dizer: “Não gostei da cena. Podemos gravar de novo?”.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista

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