“Tudo está consumado”, diz o condenado, prestes a falecer. Pouco depois, ele olha para o céu e exclama: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” - e morre. Um soldado chega, a fim de verificar o óbito, e transpassa o corpo do cadáver com uma lança. Sangue e água jorram da altura do peito da vítima. De fato, já se encontrava morta.
O leitor certamente já deve conhecer a passagem descrita acima, uma vez que se trata da narrativa resumida de como Jesus morreu - talvez o evento histórico mais recontado e reproduzido em todo mundo e que, até hoje, suscita polêmica tanto entre cristãos quanto entre os não-crentes.
“A crucificação de Jesus”, do norte-americano Frederick T. Zugibe, pode ser considerado um dos trabalhos mais recentes nessa linha que tenta reconstituir as Escrituras a partir de paradigmas atuais. Lançado no Brasil este ano pela editora Idéia e Ação (nos Estados Unidos o título se encontra à disposição do público desde 2005), o livro discute, com base em conceitos da medicina-legal, como teria sido a morte de Jesus.
Como se estivesse executando uma investigação forense, Zugibe tenta reconstituir cada situação de dor e sofrimento vivida por Jesus antes de morrer.
Na opinião de Zugibe (peço perdão a todos por contar o final da trama), Jesus teria morrido vítima de uma parada cardiorrespiratória, em razão do choque traumático e hipovolêmico (diminuição acentuada do volume sangüíneo), resultante da crucificação.
Além disso, o médico-legista, que vem se dedicando a estudar o assunto há mais de cinco décadas e também é professor-adjunto na Universidade de Columbia, afirma que o sofrimento físico e mental a que Jesus esteve sujeito nas horas que antecederam a crucificação acabou por acelerar drasticamente sua morte. Do contrário, ele correria o risco de ter permanecido preso à estaca por quase uma semana.
As fases da investigação
Jesus não foi o primeiro (nem o último) indivíduo na história da humanidade a morrer na cruz. Antes deles centenas de milhares de pessoas já haviam padecido naquela que, talvez, pudesse ser considerada (ao lado do empalamento) a pior forma de tortura já inventada pelo homem.
Há indícios de que a prática tenha surgido entre os povos da Ásia Menor, por volta do século 6 a.C. Os romanos teriam aprendido a técnica com os fenícios, três séculos antes de Jesus morrer, e desde então, adotaram a cruz como a punição para os traidores de seu império.
A agonia de um indivíduo na cruz poderia durar dias (às vezes semanas), fato que sempre gerou muita controvérsia entre os estudiosos da morte de Jesus. A grande questão que se coloca é a seguinte: por que ele morreu tão rapidamente?
Para Zugibe, as causas da morte rápida remontam ao momento em que Jesus entrou no jardim de Getsêmani, em Jerusalém, para rezar, algumas horas antes de ser capturado por seus algozes. Ali, tomado de intensa dor física e mental, ele orou a Deus, e viu seu suor se transformar em gotas de sangue. Isto, pelo menos, é o que afirma o apóstolo Lucas em seu Evangelho.
De acordo com Zugibe, a cena narrada pelo evangelista poderia ser descrita como um quadro de hematidrose, enfermidade rara, em que a pessoa, sob estado de forte ansiedade, expele sangue pelos poros da pele.
Isto teria, segundo o médico, induzido Jesus a um quadro de fraqueza geral (notem que ele teria passado a noite toda em claro), além de “depressão, moderada desidratação e discreta hipovolemia (baixo volume sangüíneo ou de fluido).
Enfraquecido, Jesus seria, mais tarde, conduzido à residência do sumo-sacerdote, Caifás, onde foi espancado. Mais tarde, diante de Pilatos, ele seria brutalmente torturado. Para Zugibe, a coroa de espinhos colocada na cabeça de Cristo teria contribuído para precipitar sua morte.
Isto porque os espinhos, em contato direto com a cabeça, teriam induzido Jesus a um quadro de neuralgia do trigêmeo (nervo situado na parte posterior do crânio), que costuma ser marcado por dores lancinantes.
Além disso, o flagelo sofrido dos soldados romanos com a chibata (que era composta por diferentes tiras de couro dotadas com pesos metálicos nas pontas, em forma de halteres) teria induzido Jesus a um quadro de vômitos, além do que, teria gerado um acúmulo de líquidos ao redor de seus pulmões. Teriam sido pelo menos 40 chibatadas, que deixaram Jesus debilitado.
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A cruz
Depois de ser flagelado pelos romanos, Jesus foi levado, junto a outros dois condenados, a uma área chamada Gólgota ou Calvário (que quer dizer “Lugar da Caveira”), situada próximo ao portão principal de Jerusalém. “Era ali que costumavam realizar as execuções dos traidores do império. Aquilo funcionava como uma espécie de aviso para as demais pessoas, para que não se atrevessem a afrontar Roma”, explica o vigário-geral da Diocese de Bauru, padre Luís Antônio Carqueijo Sé.
Jesus, segundo consta nos Evangelhos, foi obrigado a carregar a própria cruz em que seria pregado. Aí repousa uma das polêmicas em torno da crucificação: como seria a estaca usada na morte de Cristo?
De acordo com o livro “A crucificação de Jesus”, do legista norte-americano Frederick T. Zugibe, o mais provável é que Jesus tenha sido crucificado em uma cruz do tipo compacta do modelo commissa (em forma de T).
Na opinião do pesquisador, devido às suas condições físicas (havia sofrido inúmeros flagelos), Jesus não seria capaz de carregar a cruz inteira, que pesava quase 90 quilos. Para Zugibe, Cristo teria carregado apenas a barra horizontal da cruz (com cerca de 27 quilos) até o Calvário. A estaca vertical, certamente, já se encontrava fixada no local onde a pena de morte viria a se consumar.