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Aprender com afetividade

Dayran Carvalho
| Tempo de leitura: 11 min

Estimular o aprendizado de maneira afetiva é a principal lição que os pais podem passar a seus filhos quando o assunto é escola. Despertar na criança ou no adolescente a vontade de aprender é uma alternativa que contribuirá não só para sua formação escolar, mas também pessoal.

“A motivação, o diálogo e o reconhecimento das potencialidades são muito importantes na educação afetiva e no fortalecimento das relações entre pais e filhos”, afirma a psicóloga Sandra Helena de Almeida, professora mestre da Universidade Paulista (Unip) e especialista em psicologia educacional. “Os pais devem estar presentes na formação escolar dos filhos”, ressalta.

Segundo a psicóloga, além da afetividade, a relação de confiança com a instituição escolar também pode contribuir muito para a compreensão das regras por parte dos filhos e para potencializar o aprendizado.

Estas e outras questões foram abordadas em uma entrevista concedida ao Jornal da Cidade. Leia os principais trechos a seguir.

Jornal da Cidade - Qual deve ser a participação dos pais na vida escolar dos filhos?

Sandra Helena de Almeida - Os pais precisam estar presentes em todos os momentos da formação do filho. Não se trata apenas de “criar” e, sim, de educar. O ideal é que eles acompanhem de perto seu desenvolvimento escolar e tenham posturas condizentes diante de diferentes fases e situações, mas sempre primando pelo diálogo e afetividade.

JC - Como seria este acompanhamento?

Sandra - Ele pode ser feito de várias maneiras. Algumas delas por meio do incentivo aos estudos, da participação em reuniões de pais e professores, do acompanhamento das tarefas (lições de casa), do diálogo com o filho e a equipe da escola e do conhecimento das potencialidades e dificuldades do filho.

JC - Que tipo de relação deve haver entre os pais e a escola?

Sandra - Sem dúvida, uma relação de parceria; parceria com a professora, com a coordenadora pedagógica (se o colégio tiver uma), com a diretora, enfim, com a equipe escolar. A comunicação entre estas pessoas é fundamental e, também, a relação de confiança. Os pais devem confiar no trabalho que a escola propõe e ter abertura para tirar dúvidas e opinar. Além disso, eles devem acompanhar o ritmo da escola e os conteúdos que estão sendo desenvolvidos.

JC - Os pais deve ficar traçando comparativos entre o colégio que o filho estuda e outras instituições de ensino?

Sandra - Acredito que não, pois a partir do momento que os pais optaram por uma escola eles devem estabelecer um pacto com ela. Porque se o adulto fica preocupado com comparações, ele pode fazer cobranças da própria escola em momentos inapropriados. Cada instituição pode ter ritmos diferentes de desenvolvimento de conteúdo mas, enfim, pretende chegar a um ponto em comum – ao término do conteúdo a ser desenvolvido. Caso haja algum questionamento sobre a metodologia, eles podem ser elucidados nas reuniões onde são passados os conteúdos que serão trabalhados e o desempenho do aluno, até então.

JC - A adaptação do filho com a escola e a metodologia utilizada deve ser levada em consideração?

Sandra - Com certeza, isso é muito importante. Eu conheço casais que possuem filhos em colégios diferentes para atender a individualidade de cada um. Em termos práticos, de levar e buscar na escola, participar de reuniões, entre outros, é mais difícil para a família – até porque a vida de todo mundo anda muito corrida. Mas, se for pelo desenvolvimento escolar do filho, este “sacrifício” pode ser válido. Por outro lado, é importante saber o que faz com que um dos filhos não se adapte àquele ambiente, pois talvez ele precise de acompanhamento psicológico e seja necessário diagnosticar o que está acontecendo.

JC – Como os pais devem fazer o acompanhamento das tarefas escolares?

Sandra - Podemos voltar ao ponto da parceria entre pais e escola. Os pais devem estar de acordo com a quantidade e o grau de dificuldade da “lição de casa”. Caso não estejam, devem questionar para que possam entender porque funciona de uma determinada maneira. Se os próprios pais não concordarem com o que está sendo passado para os filhos, a tendência é que eles também não concordem e deixem de fazer ou não façam com empenho. É muito importante que os filhos percebam o valor que os pais dão ao trabalho da escola. Assim, os alunos perceberão que aquilo é importante e valorizarão o aprendizado.

JC - Os pais devem estabelecer uma rotina de estudos para os filhos?

Sandra - A tarefa precisa ter um ritmo, um horário reservado para ela. Isso deve ser freqüente, principalmente no caso de crianças menores, para que ela crie o hábito. O tempo que elas levam para fazer as tarefas deve ser considerado. Algumas podem levar meia hora, outras uma hora e meia, outras duas horas, etc. O ideal é que a criança esteja descansada na hora da lição de casa e que o ambiente esteja tranqüilo, preferencialmente sem televisão ligada, pessoas falando a sua volta e sem interrupções, afinal, é hora da tarefa. É importante dizer que os pais não devem estar mais preocupados com a qualidade das tarefas do que com a quantidade.

JC - E em caso de filhos maiores?

Sandra - Tudo varia conforme a criança vai crescendo. Seria como ensinar a andar de bicicleta: aos poucos. No começo, a participação dos pais deve ser mais ativa. Eles sentam junto e ajudam os filhos na hora da tarefa. Aos poucos, a criança cria o hábito e vai por si mesma. Assim, os pais vão tirando ajuda total e passando, apenas, a inspecionar como as coisas estão caminhando. Na verdade, trata-se de uma ajuda que progride para a independência do filho. Haverá momentos que a criança ou adolescente já saberá determinar seu tempo e horário para tarefas. Às vezes, poderá não ser necessário estudar todos os dias (depende da necessidade de cada um) e, às vezes, as horas que ele passará diante dos livros em um dia poderá ser bem maior, principalmente em períodos de avaliações.

JC - Qual deve ser a postura dos pais ao ajudar os filhos nas tarefas de casa?

Sandra - Os pais não podem confundir ajudar a fazer com fazer para elas. Às vezes, os pais julgam que as tarefas são difíceis e em grande quantidade e acabam fazendo para os filhos, ao invés de dialogar com a escola. Eu compreendo a parte humana deste pai ou mãe que “têm” que dar conta deste compromisso com a escola, mas isso não é o ideal. Ao fazer a tarefa para os filhos os pais não estão dando um bom exemplo, afinal, para o aluno fazer a tarefa é uma regra e, com esta postura, está sendo quebrada, ou seja, os pais, de certo modo, estão incentivando os filhos a quebrarem regras. Sem falar que pode dar ao filho a impressão de incapacidade. Seria como se ele tivesse que fazer porque o filho não dar conta. Eu acredito que uma postura muito positiva é o pai incentivar o filho a fazer e estimular o seu raciocínio. Ao sentar com o filho para fazer a tarefa, ele deve buscar maneiras que possam ajudá-lo a compreender a matéria e caminhar sozinho.

JC - O filho se sentirá mais motivado com este tipo de atitude?

Sandra - Sem dúvida. Quando o pai pára tudo o que está fazendo, principalmente com a correria do dia-a-dia, para olhar para o filho e ajudá-lo, ele demonstra que está interessado no desenvolvimento da criança. É um tipo de amor e de respeito com a formação educacional do filho.

JC - Os pais devem tomar cuidado com os limites entre a motivação e a cobrança excessiva?

Sandra - Hoje nós vivemos em um mundo competitivo em que quando os filhos têm 6 anos os pais já estão pensando em seu sucesso no vestibular, que ele consiga bons empregos, entre outros. Então, às vezes, isso pode ser uma cobrança exagerada. Uma forma de estresse. Sem perceber, os pais podem estar se descuidando da formação afetiva. Recomenda-se que as duas coisas sejam conciliadas. Seria um ‘aprender com afetividade’.

JC - O que é aprender com afetividade?

Sandra - É a criança ter vontade de aprender. Os pais mostrarem a elas que aquilo é interessante, engrandecedor, que vai trazer conhecimento, que vai ser bom. Sem dúvida, entender os benefícios e querer aprender é bem melhor do que aprender por meio da cobrança. É uma maneira de conciliar o conhecimento cognitivo com o afetivo – ver o ser humano como um todo. Quando o indivíduo não encontra um sentido para fazer algo, ele tem mais dificuldades em assimilar conteúdos. A criança que aprende com afetividade tem possibilidade de aprender mais.

JC - E quando os filhos apresentam muita resistência em relação aos estudos?

Sandra - Pode ser preciso procurar ajuda psicológica ou psicopedagógica para se fazer uma avaliação desta criança. Não dá para formular uma conclusão geral porque os casos são individualizados. Mas é imprescindível avaliar, também, o que está acontecendo com a família quando se pensa em teoria sistêmica, que avalia a situação da família toda, não só da criança e da escola.

JC - Como os pais devem agir diante das potencialidades e dificuldades escolares dos filhos?

Sandra - Devemos sempre partir do aspecto positivo. Identificar o que a criança ou adolescente gosta, o que ela faz bem, em quais disciplinas ela tem mais sucesso. Às vezes, nós pais (até me incluo nessa situação) ficamos tão preocupados que queremos que nossos filhos tenham sucesso em tudo. Mesmo quando os filhos têm mais sucessos do que insucessos, ficamos pegando no pé nos aspectos que não estão bons e nos esquecemos de também exaltar os sucessos. Isso pode gerar um descontentamento no filho ao pensar que só estamos olhando suas falhas. Uma boa alternativa é sentar para dialogar com o filho e descobrir o que está acontecendo que faz com que ele vá bem em algumas disciplinas e em outras não. Mostrar que ele pode se sair melhor. Tentar motivá-lo para que ele desenvolva novas potencialidades.

JC - Uma nota baixa significa falha no aprendizado?

Sandra - Não necessariamente. O pai deve estar atento ao que acontece, pois se ele acompanhou as tarefas do filho e sua rotina de estudos, saberá se a nota é, ou não, sinônimo do que ele aprendeu do conteúdo avaliado. Pode ser que o aluno estudou, entendeu a matéria, mas não estava bem no dia da prova e tirou nota baixa. Este é o momento de haver diálogo entre pai e filho para saber o que aconteceu. Fatores emocionais e psicológicos podem estar interferindo e indicar uma necessidade de orientação especializada.

JC - Qual deve ser a postura dos pais quando os professores chamam a atenção de seus filhos?

Sandra - Neste caso, deve haver maturidade e diálogo entre os adultos envolvidos, ou seja, o pai, a mãe e a professora. Os pais devem procurar saber os dois lados da história: tanto do filho quanto da escola. Às vezes, acontece uma relação de imaturidade dos pais para com a escola e a professora, que pode culminar na desautorização das regras – o que não é indicado. É preciso pensar que o filho pode ter feito por merecer a bronca. Mas é importante dar voz a ele para que se explique. Só assim será possível avaliar os acontecimentos. Quando for constatado que o filho teve uma conduta inapropriada, o ideal é que os pais o levem a refletir sobre a questão. Alguns adultos se preocupam apenas com a punição (castigos, por exemplo), mas esta punição sem reflexão poderá não trazer resultados. O filho deve entender o porquê das regras e a importância de respeitar cada uma delas. Só assim ele repensará suas atitudes.

JC - É importante os pais incentivarem a participação dos filhos em atividades extracurriculares oferecidas pela escola?

Sandra - Isso é benéfico para a relação entre os alunos e, também, com os professores, pois é o momento de sair da sala de aula e colocar em prática o que aprendeu. As experiências fora da classe também podem ser muito positivas. No entanto, a criança ou adolescente deve querer participar. Não adianta os pais encherem a agenda dos filhos com uma série de atividades (que podem ser oferecidas dentro ou fora da escola) que consideram apropriadas. É preferível que ele faça menos coisas, porém com qualidade.

JC - Na sua opinião, os pais têm atendido às necessidades escolares dos filhos ?

Sandra - Alguns sim, outros não. Muitas vezes há uma certa imaturidade e indisponibilidade por parte dos pais diante dos filhos. A correria, as novas tecnologias, o estresse, o culto à beleza e outros fatores acabam deixando de fortalecer a relação entre pai e filho. Os pais devem ter em mente que eles são o barco e os filhos são o mar, ou seja, os filhos têm o direito de estarem agitados, à deriva, ansiosos, já os pais devem ter uma postura de condução.

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