Tribuna do Leitor

Ano eleitoral


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Ano eleitoral, tempo em que muitos se aventuram pelas sendas da disputa do sufrágio popular, na ânsia desenfreada de alcançar o poder ou nele se manter.

O fascínio pelo poder é algo que está impregnado no espírito humano tão fortemente, que, não raro, pessoas se vulgarizam a ponto de perder o senso da vergonha, a sensibilidade da moral e o princípio da honradez, expondo-se ao escárnio da sociedade. E o pior é que nem mesmo demonstram constrangimento. É como se tudo fosse natural e permitido ao ocupante de cargo público, de modo geral, eletivo ou não. Como se “deslizes” fossem inerentes ao exercício da função pública, portanto, devendo ser compreendidos e relevados pela sociedade, sem maiores censuras.

Novo ano eleitoral, tempo dos conchavos políticos, das falsas promessas, promessas desmedidas e irresponsáveis, que não podem ser cumpridas, mas que a grande maioria da massa votante, por desconhecimento, as recebe de boa fé e conduz ao poder pessoas ardilosas, de caráter dúbio, indignas de representação popular. É por isso que 70% dos municípios paulistas estão com suas contas comprometidas. É por isso que surgem os “mensaleiros”, os “sanguessugas” e tantos outros escândalos sórdidos e desprezíveis.

Há que se reconhecer que na vida pública há gente íntegra, que prima pela honestidade, pelo trabalho digno, pela lealdade e que pensa, sim, na próxima geração, claro que sem perder de vista a próxima eleição, o que não está errado. Até acredito na boa intenção da maioria dos candidatos, principalmente por ocasião da candidatura. Mas, ao ser guindado ao poder, o homem, comumente, deixa esvaírem-se as boas intenções e se contamina da tendência dominante, isto é, tirar vantagem da oportunidade, já que essa é a cultura brasileira.

Ah, não fosse a imprensa, esse verdadeiro poder paralelo que tudo investiga e traz à luz os mais escabrosos casos de corrupção, geralmente, muito bem urdidos e camuflados e que estariam propensos a escapar do conhecimento do povo! Apenas do conhecimento, porque da justiça, depois de inimagináveis peripécias de ordem jurídica, acabam por escapar.

Congratulemo-nos, também, com a Polícia Federal, órgão que tem conquistado a confiança e a admiração da sociedade, pela eficiência e imparcialidade, arrancando dos mais escuros labirintos e denunciando à Justiça os mais vergonhosos atos de corrupção.

Que bom seria se nada disso fosse preciso. Que a imprensa continuasse vigilante, que a Polícia Federal continuasse com seu trabalho, mas que nada encontrassem para denunciar...! Como é bom sonhar! Apenas sonhar, porque o progresso moral é demasiadamente lento. Há mais de um século, já Rui Barbosa dizia que de tanta patifaria o homem desanimava-se da virtude, ria-se da honra e sentia vergonha de ser honesto. Pergunto: de lá para cá, mudou alguma coisa?

Mas é preciso acreditar. É preciso acreditar que a patifaria um dia terá fim, ou que pelo menos ficará sob controle. Caso contrário, ela se perpetuará. Contudo, para se chegar a isso, é preciso dar um começo e esse começo seria encontrar uma maneira legal de impedir que pessoas indignas alcançassem ou permanecessem no poder.

Há projeto para impedir que pessoas condenadas, ou que estejam respondendo a processo, concorram às eleições. Já é um começo. Vamos acreditar e torcer para que esse projeto seja aprovado, para que a seleção, através das urnas, torne-se um pouco mais amena para o eleitor, que já vive sobrecarregado pelo peso das dificuldades naturais da vida e não tem tempo nem condições para investigar candidatos inescrupulosos. Não que esse projeto vá nos permitir conhecer onde termina a decência e começa a vileza, onde termina o homem e começa o espectro, mas vai facilitar para que possamos nos aproximar mais da escolha de uma candidatura sem jaça, pelo menos no que diz respeito ao caráter, restando-nos, ainda, acertar na escolha daquele que tenha vocação contínua para ser honesto, que tenha carisma e que tenha dom para representação popular.

Roldão Senger

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