Um dos principais problemas de saúde pública no País, a hipertensão arterial acomete principalmente os afro-descendentes. Dados do Estudo Corações do Brasil, divulgados pelo site Destaque Negro, confirmam a informação que serve de alerta no Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial, comemorado hoje.
De acordo com o material veiculado na Internet, entre a população negra, a porcentagem de hipertensos é de 34,8% dos participantes da pesquisa. Já entre pardos e mulatos, o índice é de 26,3%, inferior aos dos brancos, que representaram 29,4% dos pesquisados. Os menores percentuais estão entre os indígenas e amarelos, respectivamente, 11,1% e 10%.
O estudo demonstra ainda que homens e mulheres negros apresentam taxas de hipertensão de duas a quatro vezes maiores do que as encontradas em homens e mulheres brancos, consta em texto do site assinado pelo médico Sérgio Francisco Luiz. Na casa de Ana Maria Ferreira, professora em Bauru, a suscetibilidade da etnia negra é de conhecimento geral. Ela e o marido enfrentam o problema, que já começou a afetar o filho do casal, de 19 anos.
“Nós estamos acompanhando. A grande maioria das pessoas não sabe dessa tendência. Também existem medicamentos que a raça negra não absorve bem”, explica Ana Maria, que já foi vice-presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra, em Bauru. Na sua gestão, foram realizadas conferências municipal e estadual da saúde da população negra em que o problema foi abordado.
O atual presidente da entidade, Ademir Elias, também é hipertenso, como seu pai. No entanto, só começou a ter clareza sobre os riscos que enfrentava quando passou a integrar o conselho. Ele conta que após as cervejas do final de semana, suava frio e sentia dor de cabeça. “Mas achava que era ressaca, deixava passar”, comenta.
Quando foi ao cardiologista, seu coração já estava mais pesado do que o normal por conta da musculatura reforçada, adquirida pelos batimentos mais freqüentes por conta da pressão alta. Atualmente, faz caminhadas, cuida da alimentação e não esquece da medicação. Tem o mesmo cuidado com remédios Jurisdina Almeida Gonçalves, que é parda. Mensalmente ela procura o posto de saúde para pegá-los.
“O médico falou que tem que tomar mesmo que a pressão esteja baixa, se não ela sobe de novo”, comenta. A observação é importante porque a displicência do paciente faz com que muitos deles abandonem o tratamento, após confirmar normalidade nas medições de pressão. O problema é que a hipertensão normalmente não apresenta sintomas.
Mas no caso de Jurisdina, o problema foi denunciado por um mal estar, num dia em que ela havia saído de casa para comprar ovos. Zonza, quase os derrubou no chão.
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‘Assassina silenciosa’
A hipertensão é traiçoeira porque, normalmente, não apresenta sintomas. A característica garante a ela o apelido de “assassina silenciosa”. Segundo o cardiologista Aigiro Kamada, muitas vezes o diagnóstico é feito quando o paciente procura assistência médica por outras razões.
A ausência de qualquer indício de problema também leva muita gente a abandonar o tratamento. De acordo com o médico, quando a pressão alta é decorrente de algum outro problema, como hormonal por exemplo, é classificada como hipertensão secundária. Quando não apresenta causa clara, a denominação passa para essencial ou primária.
“Para prevenir, a pessoa tem que procurar medir a pressão. Se tiver alterada apenas uma vez, talvez não seja hipertensa. Também deve evitar sal, gordura e cigarro”, afirma Kamada. A prática de exercício físico ainda tem sido considerada importante no controle do problema, ressalta Jefferson Martins Felício, estagiário da Physical Center, Marathon Wellness.
Sob orientação da professora Sandra Lia do Amaral, ele idealizou um programa que consiste em avaliação física, aferição de freqüência cardíaca e pressão arterial antes e depois dos exercícios. Os dados são registrados para possíveis análises dos médicos cardiologistas responsáveis por cada aluno.
Dados de 2007 do Datasus utilizados no trabalho elaborado por Felício indicam que a hipertensão é responsável por 40% dos casos de aposentadoria precoce e ausência no trabalho.
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Indícios
Algumas possíveis explicações para a prevalência da hipertensão arterial na população negra também constam no site Destaque Negro, em texto assinado pelo médico Sérgio Francisco Luiz. Ele cita hipóteses como o fato dos afro-descendentes apresentarem maior incidência de baixo peso ao nascerem.
Outra possibilidade é que eles sofrem menor queda de pressão arterial durante o sono e, em razão de muitos enquadrarem-se num nível socioeconômico baixo, o acesso a serviços adequados de saúde encontra-se prejudicado. Os negros também estariam expostos em maior grau às situações de estresse psicossocial, além de apresentarem maior prevalência de obesidade e sensibilidade ao sal.
Uma outra explicação remonta à época da escravidão, informa o médico. Ele conta que, na época, a taxa de mortalidade dos africanos escravizados durante a viagem para o Brasil girava em torno dos 30%. As causas de morte mais recorrentes eram desidratação e doenças diarréicas. O que se infere, escreveu ele, é que a grande maioria dos sobreviventes possuía capacidade maior de retenção de sal (cloreto de sódio), situação que eleva a pressão.
No entanto, informa o mesmo site, estudo realizado com remanescentes de quilombos no norte de Goiás revelou que quando há baixa ingestão de sal, atividade física constante, taxas reduzidas de obesidade e organização social pouco competitiva, os índices de hipertensão arterial são ínfimos.