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Desigualdades e semelhanças


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Com alguma freqüência tenho lido ou ouvido comentários comparando o Fome Zero do governo Lula aos programas de combate à fome e de amparo ao trabalho, abrigados sob o guarda-chuva do “New Deal” de F. D. Roosevelt, o presidente que conseguiu tirar a economia americana da maior recessão do século 20. Três quartos de século separam essas experiências: na primeira metade da década 1930/40 os Estados Unidos e o mundo mergulharam numa crise sem precedentes, fruto da quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Quando Roosevelt tomou posse do primeiro mandato em 1933, o PIB americano tinha sido reduzido à praticamente a metade (US$ 56.4 bilhões) do que era em 29 (US$ 103 bilhões). Esse número dá a idéia da enormidade do problema que logo se propagou às demais economias.

Apesar da tragédia de milhões de desempregados, os EUA eram uma nação próspera, havia muita riqueza e uma boa parte da sociedade afluente aceitava o desemprego como “contingência natural” dos ciclos econômicos, numa economia de mercado. A melhor coisa que os governos deviam fazer “é ficar fora disso”. Roosevelt surpreendeu já no discurso de posse anunciando o fim da era da indiferença: temos 5 milhões de sujeitos passando fome e nós vamos dar de comer a eles. O governo entende que é sua obrigação providenciar trabalho para que eles mesmos voltem a sustentar suas famílias. Para escândalo de muitos, seu governo colocou em marcha os dois maiores programas de que se tem notícia até hoje de amparo ao trabalho e combate à miséria, complementados por investimentos públicos em obras distribuídas por todo o país, cuja principal exigência era a absorção de mão-de-obra (uma espécie de PAC).

Esses programas sofreram pesado bombardeio da mídia oposicionista que, a título de defender o sistema capitalista das investidas “socialistas”, esconjurava a ingerência estatal no setor privado porque direcionava as obras ou no campo social, porque interferia na oferta e procura de mão de obra, desvirtuando o funcionamento do mercado de trabalho... Hoje ninguém duvida que esses programas foram fundamentais para a reconstrução da confiança dos americanos nos fundamentos do regime de economia de mercado. Na verdade eles ajudaram a salvar o capitalismo, na medida em que os milhões de trabalhadores recuperados para o mercado de trabalho voltaram a acreditar na vontade e na capacidade do governo de intervir na economia para “proporcionar uma igualdade mais substancial de oportunidades” (FDR numa das primeiras apresentações do New Deal). O fato é que o PIB americano cresceu durante todo o primeiro e segundo mandatos e em 1940 havia recuperado o nível que perdera desde o início da Grande Depressão, medindo 101,4 bilhões de dólares, (ou US$ 790 bilhões, em dólares de 2006, algo próximo do atual PIB brasileiro). A filosofia do recente programa brasileiro de combate à fome e retomada do crescimento não difere muito do empreendimento americano do século passado. E há algumas semelhanças interessantes desde a concepção, produto da intuição de dois homens de origens e épocas tão diferentes, mas singularmente bem mais próximos do que se imagina.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP

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