Entrevista da semana: Antônio Marques Rodrigues dos Santos
Integrante da primeira turma de pilotos de planadores do Aeroclube de Bauru, Antônio Marques Rodrigues dos Santos, 86 anos, tem duas grandes paixões na vida. A aviação, como não poderia deixar de ser, é uma delas. A outra é o esporte.
Amante do atletismo, ele se tornou um especialista nos 400 e 800 metros rasos. Por três anos consecutivos, foi eleito o atleta mais completo dos Jogos Abertos do Interior. Além do atletismo, jogou basquete, vôlei e tênis.
Foi diretor da Federação Paulista de Basquete, no Interior, e segundo vice-presidente da Federação Paulista de Natação. Como presidente da Comissão Central de Esportes, durante três mandatos (Nuno de Assis, Alcides Franciscato e Edmundo Coube), Rodrigues construiu um alojamento para atletas que vinham de outras cidades e Estados para disputar campeonatos em Bauru.
Ainda na parte administrativa, atuou como organizador nos Jogos Abertos do Interior em Bauru, em 1970. Foi presidente da Associação Luso Brasileira entre 1980 e 88. Durante esse período, construiu o prédio onde funciona até hoje a sede da Luso e comprou o clube de campo.
Natural da região de Coimbra, em Portugal, Rodrigues se naturalizou brasileiro quando concluiu a Faculdade de Direito, em 1957. Ele fez parte da primeira turma da Instituição Toledo de Ensino (ITE). Acompanhe a seguir a entrevista concedida por esse cidadão bauruense - homenagem prestada em 1972 - ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade – A vida do senhor está muito atrelada à aviação e ao esporte. O que surgiu primeiro?
Antônio Marques Rodrigues dos Santos – O esporte. Minha vida no atletismo começou quando eu tinha 16 ou 17 anos. Eu corria muito e um dia fui procurado pelo velocista Oswaldo Rasi (pai do dramaturgo Mauro Rasi), um dos melhores atletas que Bauru tinha naquela época. Comecei a treinar no Esporte Clube Noroeste, cujo campo ficava onde hoje é o Hospital de Base, e peguei gosto pela coisa. E fui me especializando, principalmente nos 400 e 800 metros rasos.
JC – Quais os principais títulos que o senhor conquistou como esportista?
Rodrigues – Fui eleito por três anos consecutivos, em 1941, 42 e 43, considerado o atleta mais completo dos Jogos Abertos do Interior. Minha pior classificação nesses jogos foi um terceiro lugar nos 400 metros rasos e um segundo lugar nos 200 metros.
JC – Por que foi eleito o atleta mais completo?
Rodrigues – Porque eu fui o vencedor do pentatlo, que são cinco provas: corrida (400 metros e 1,5 mil metros), arremesso de disco e peso, salto em altura e extensão. Ficaria com o troféu em definitivo quem ganhasse três vezes consecutivas ou cinco alternadas. Como eu ganhei três vezes seguidas, fiquei com o troféu.
JC – O senhor seguiu como atleta até quando?
Rodrigues – Minha vida como esportista acabou quando tive de me mudar para Andradina. Antes, morei um tempo em Santos. Foram cinco anos. Eu estava prestes a me tornar um atleta do Paulistano, com direito a bolsa de estudo para cursar engenharia, mas tudo mudou completamente. A empresa em que o meu pai trabalhava lá em Santos encerrou as atividades e ele voltou para Bauru. Eu segui para Andradina, onde fui morar na casa de um primo. Aí acaba minha vida como esportista.
JC – Por quê?
Rodrigues – Porque eu tive de abandonar tudo para trabalhar. Meu primo tinha uma empresa em Andradina e eu fui trabalhar com ele. Naquela época, a cidade estava começando e eles estavam devastando uma floresta que existia naquela região. Tinha cedro e peroba com tronco grosso. Uma pessoa não conseguia abraçar. O pessoal cortava, eu media a tora, pagava pelo serviço e o caminhão da empresa ia buscar. Fiquei três anos trabalhando nesse ramo. Depois abriu uma casa bancária na cidade, fui trabalhar lá, a vida melhorou. Vim para Quintana, perto de Marília, no beneficiamento de arroz e café. Em 1951, voltei para Bauru, onde trabalhei em indústria e me tornei sócio de uma firma de eletricidade. Montei uma fábrica de luminoso, trabalhei bastante tempo nela até me aposentar.
JC – E quando começa a vida de aviador?
Rodrigues - Minha história na aviação começa em 1944. Como eu havia nascido no Exterior, não podia pilotar avião, somente planador. Então, eu fiz o curso de planador. Fiz parte da primeira turma do aeroclube. De aluno, virei instrutor e depois diretor do aeroclube.
JC – O senhor nasceu onde?
Rodrigues – Eu nasci em Portugal, na região de Coimbra. Vim para o Brasil com 8 meses de idade. Nós fomos morar em Guaiçara, na região de Lins. Isso em 1923. Sete anos depois, viemos para Bauru: eu, meu pai, minha mãe e meu irmão mais novo (morto em acidente aéreo). Meu pai foi contratado para construir 50 casas e aqui ficou.
JC – O senhor voltou a Portugal para conhecer o lugar onde nasceu, já que saiu bem pequeno de lá?
Rodrigues – Voltei faz uns cinco anos. Foi a primeira e única vez. Procurei uma pessoa que conheceu meu pai e ele me mostrou a casa onde eu nasci. Pedi licença para os moradores e eles me deixaram entrar para conhecer a casa. Português é um povo bom (risos).
JC – Voltando à aviação, foi fácil aprender a voar?
Rodrigues – Não muito porque tivemos de aprender na raça. Praticamente, não tínhamos instrutor. Nosso instrutor (o alemão Hendrich Kurt), não falava português. A única coisa que ele sabia falar em português era palavrão. Ele mexia o tempo todo com duas bandeiras. Era com elas que ele sinalizava o que nós devíamos fazer. Foi assim que todo mundo aprendeu. A diferença hoje é muito grande. Antes a gente voava em um pedaço de pau, hoje é uma avião.
JC – Em razão dessas limitações, no início, em algum momento, o senhor teve medo de voar?
Rodrigues – Para mim não existe essa expressão “medo”. Tem alunos que chegam lá em cima e travam. Só existe um jeito de resolver isso. É dando umas porradas no aluno, senão você vem para baixo com ele. Isso já aconteceu comigo, quando era instrutor. Isso no passado, porque a coisa foi evoluindo e agora o instrutor também tem controle do planador.
JC – Nessa época, em que o planador não contava com os recursos que tem hoje, aconteceram acidentes?
Rodrigues – Aconteceram muitos acidentes, mas nenhum fatal, mesmo porque o clima sempre favoreceu.
JC – Dá para voar até quantos metros com um planador e a que velocidade?
Rodrigues – Minha maior altitude foi 1,8 mil metros, já faltando oxigênio. E a velocidade varia de acordo com a aerodinâmica do aparelho, mas pode chegar a 100 ou 120 quilômetros por hora. O que vale muito no vôo a vela é a meteorologia. Você precisa saber o que é um cúmulo (um tipo de nuvem), onde você pode entrar, onde não deve entrar, tem alguns com granizo dentro. Tem de saber o que é uma térmica e como explorá-la.
JC – E o que é uma térmica?
Rodrigues – É o ar quente. O ar quente sobe e te leva junto. Quando você vê um pássaro voando sem bater as asas, ele está subindo com a ajuda de uma térmica. Ela pode subir até cinco metros por segundo. De repente, ela acaba. E você tem de procurar outra. É assim que você viaja de planador.
JC – A sensação de voar em um planador é a mesma de voar em um avião?
Rodrigues – É igual. A única diferença é que no planador é você que voa e não a máquina. É você que se mantém no ar, a máquina não faz nada por você. Nosso motor é o ar quente. Se você não souber aproveitar o clima, você chega primeiro que o avião no chão. Tem de estar relaxado para pilotar, tem de sentir quando há pressão de baixo para cima. É um negócio maravilhoso. Só quem voou para saber como é gostoso. É impossível descrever isso em palavras, porque não tem nada no chão que provoque a mesma sensação que se tem quando está lá em cima.
JC – Imagino que a primeira vez que o senhor conseguiu voar deve ter ficado muito contente.
Rodrigues – É uma loucura. Você não dorme. A gente não se cabe de tanta alegria.
JC – Tem época do ano que é melhor para voar?
Rodrigues – Em épocas quentes. Como o motor do planador é o ar quente, tem de haver calor. Por isso, Bauru é um lugar excelente para o vôo à vela. Além de quente, é uma região que não tem fortes ventos. O solo de Bauru também ajuda. Por ser arenoso, ele desprende o calor com mais facilidade do que a terra roxa.
JC – E no inverno?
Rodrigues - No inverno, o ar quente fica muito baixo. Acima dos 300 metros já está frio. Mas é uma boa época para a instrução, porque dá para voar reto e calmo. É ideal para quem está aprendendo, porque não há traumas, não há sobressaltos.
JC – O senhor já voou com esses planadores novos?
Rodrigues – No ano passado, fizeram uma homenagem aos alunos mais antigos do aeroclube e eu estava entre eles. Durante o evento, me convidaram para voar de novo. Eu recusei o convite. Mas aquilo mexeu comigo. Passou uns dez dias, eu não resisti e voltei lá. Pedi para voar de novo. Fiquei esperando uma folga e quando ela veio entrei no planador. No começo, eu senti que o instrutor estava comandando o aparelho junto comigo. Não demorou muito, senti que o comando era só meu.
JC – Fazia quanto que o senhor não voava?
Rodrigues – Desde 1966. Mas é a mesma coisa que saber andar de bicicleta. Você não esquece nunca. A única diferença é que quando entrei na cabine dei de cara com um painel com oito instrumentos. A última vez que eu havia voado existiam apenas três. Mas deu tudo certo.
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Perfil
Nome: Antônio Marques Rodrigues dos Santos
Idade: 86 anos
Local de nascimento: Portugal
Mulher: Hilda Alice Azevedo Rodrigues dos Santos
Filhos: Manoel Armando, Antônio Carlos e Ana Cristina
Hobby: Mexer com esportes
Livro de cabeceira: Não tenho favoritos
Filme preferido: “... E o Vento Levou”
Estilo musical predileto: Qualquer estilo
Time: Corinthians
Para quem dá nota 10: Para os ex-prefeitos Nuno de Assis, Alcides Franciscato e Edmundo Coube
Para quem dá nota 0: Para a política atual